O comércio entre Brasil e China continua a crescer, consolidando-se como o principal parceiro comercial do Brasil. Em 2025, o fluxo bilateral alcançou aproximadamente US$ 171 bilhões. No primeiro trimestre de 2026, as exportações brasileiras para a China totalizaram US$ 23,9 bilhões, representando um aumento de 21,7% em relação ao ano anterior. Esse crescimento foi impulsionado principalmente por petróleo e outras commodities.
Esse cenário de crescimento elevado, porém concentrado em poucos produtos e grandes empresas, motivou o surgimento de iniciativas que buscam reduzir as barreiras operacionais do comércio. Nesse contexto, foi lançada a plataforma CBBC (China-Brazil Business Connection), que tem como objetivo atuar como uma ponte entre empresas dos dois países, facilitando operações comerciais.
A iniciativa é liderada pela empresária chinesa Yan Fan, presidente do Qingdao Muyi Holding Group, em parceria com o empresário gaúcho Eduardo Bozzetto, responsável pelo desenvolvimento da plataforma. A CBBC opera tanto no Brasil quanto na província chinesa de Shandong.
De acordo com os executivos, o principal obstáculo está na execução. Importar diretamente da China frequentemente requer a compra de grandes volumes, pagamento antecipado em dólar e longos períodos de espera até a chegada da mercadoria ao Brasil. Para pequenas e médias empresas, essa estrutura pode inviabilizar a operação. “Para uma rede de restaurantes, um distribuidor regional ou um pequeno varejista, isso simplesmente não era viável”, explica Eduardo Bozzetto.
A CBBC busca resolver esse problema ao permitir que produtos cheguem ao Brasil já nacionalizados e disponíveis em quantidades menores, possibilitando compras fracionadas, com pagamento em reais e entrega mais rápida. “O pequeno comprador não precisa mais ter escala de importador para acessar produto chinês de qualidade”, afirma Bozzetto.
A plataforma funciona como um marketplace B2B, com receita gerada pela intermediação das transações entre compradores brasileiros e fornecedores chineses. Na importação, a monetização ocorre por meio de margens sobre produtos já nacionalizados e vendidos em menor escala. Na exportação, a receita provém da conexão entre empresas brasileiras e compradores qualificados na China, além de serviços adicionais como estruturação de operações, inteligência comercial, análise de crédito e suporte logístico.
Pedro Toledo, empresário e sócio da plataforma, afirma que a expectativa para o primeiro ano é intermediar dezenas a centenas de milhões de reais em transações, focando na validação do modelo, construção de liquidez e consolidação da base de clientes.
As dificuldades nas exportações seguem um padrão diferente, mas com impactos semelhantes. “Encontrar um bom comprador chinês, verificar sua idoneidade e estabelecer uma relação de confiança é um processo longo e caro para quem não tem rede”, diz Bozzetto. Além disso, a burocracia sanitária e documental, assim como desafios financeiros, como câmbio e prazos de pagamento, complicam ainda mais a situação.
Apesar do crescimento expressivo, o comércio bilateral permanece concentrado em poucos produtos, como soja, petróleo e minério de ferro, tornando o fluxo vulnerável a oscilações de preços e decisões de política comercial. “A dependência de poucos produtos é uma vulnerabilidade conhecida”, afirma Bozzetto. O crescimento do comércio é sustentado pela demanda chinesa por commodities e alimentos brasileiros, mas fatores externos, como tensões geopolíticas e mudanças na política industrial chinesa, podem influenciar esse movimento.
Entretanto, há espaço para diversificação. Executivos da CBBC apontam a demanda por produtos como alimentos processados, proteínas, café, açaí e frutas tropicais. “O problema não é falta de demanda, é falta de canal”, conclui Bozzetto. A proposta da CBBC é atuar como uma intermediária mais completa, integrando conexão, curadoria e execução, enfrentando desafios que vão além da intermediação, como barreiras regulatórias e custos financeiros.


