Médicos e engenheiros brasileiros estão desenvolvendo um programa de inteligência artificial que identifica dores em recém-nascidos. A iniciativa busca resolver a dificuldade de avaliar a dor em bebês que ainda não conseguem verbalizar suas sensações.
A professora Ruth Guinsburg, da Unifesp, explica que a dor é uma experiência verbal. ‘Quando a gente define dor, a gente tá falando de uma coisa verbal. Por exemplo, eu pergunto para você: ‘você tá com dor? Que tipo de dor é?’
Thaíssa Pereira, mãe do recém-nascido Victor Benício, que nasceu prematuro e está na UTI, expressa sua preocupação: ‘Como ele está com esse cansaço respiratório, eu não sei se ele tá bem. Eu não sei como, como agir, como lidar, em tocar nele’. Essa incerteza é um desafio significativo para os médicos.
A professora Ruth destaca que ‘num recém-nascido que ainda não tem a capacidade de verbalizar a dor é muito difícil dizer quanto de dor e que tipo de dor’. Para avaliar a dor, os médicos utilizam a NFCS, uma escala internacional que analisa expressões faciais dos bebês, como boca aberta ou tensa, queixo tremendo e testa contraída, juntamente com dados fisiológicos.
Em 2015, médicos da Universidade Federal de São Paulo e engenheiros da FEI se uniram para aprimorar a avaliação da dor. Câmeras instaladas em incubadoras gravaram cerca de 300 horas de expressões faciais de recém-nascidos durante o tratamento. Essas imagens estão sendo analisadas por um programa de inteligência artificial.
O pesquisador Lucas Pereira Carlini, da FEI, afirma: ‘Quando a gente escreveu para o modelo, observe a boca, observe o sulco nasolabial e relacionados, ele observa e conclui falando se é dor ou não’. O modelo gera gráficos que indicam as expressões relacionadas à dor.
O professor Carlos Thomaz, também da FEI, comenta que o modelo destaca a importância da boca na identificação da dor. ‘Esse vermelho quer dizer a boca. Então a gente percebe que em algum momento a boca começa a se tornar mais importante para esse modelo na tomada de decisão, principalmente quando ele tá com dor, do que antes’.
O estudo foi publicado em uma das mais importantes revistas científicas internacionais. Atualmente, o programa está sendo desenvolvido apenas para uso em hospitais. ‘Uma ferramenta desse tipo vai permitir você capturar, monitorar e mensurar a dor, detectar a dor, de forma a identificar os momentos que realmente são necessárias uma intervenção, uma intervenção médica’, conclui Carlini.


