Um exame realizado pelo Instituto Nacional de Criminalística, da Polícia Federal, confirmou que as anotações em um livro histórico apreendido com Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, em 1789, são de sua própria autoria. A obra, que estava com o alferes no momento de sua prisão no Rio de Janeiro, continha ideias consideradas subversivas e inspirou o movimento da Inconfidência Mineira.
“Esse livro é uma prova de que Tiradentes estava comprometido com a ideologia republicana, que ele queria transformar o Brasil numa república e independente à maneira dos Estados Unidos ou uma constituição”, afirmou Ângelo Osvaldo, prefeito de Ouro Preto.
A autenticidade das anotações era uma dúvida que perdurava por séculos. Para esclarecer a questão, peritos analisaram a morfologia das letras, o movimento da mão e a ligação entre os traços, utilizando uma técnica chamada grafoscopia. O trabalho exigiu equipamentos especiais, como uma mesa reprodutiva com iluminação adequada e um comparador espectral de vídeo, devido ao tamanho reduzido das anotações.
“”Nós temos uma mesa especial com iluminação especial para auxiliar porque as anotações elas são muito pequenas, né? Além disso, nós utilizamos um comparador espectral de vídeo, que tem um jogo de luzes especiais que permitem também a gente enxergar de melhor maneira os lançamentos que foram encontrados no livro”, explicou Acir de Oliveira Junior, perito criminal federal.”
Após comparar as anotações com documentos originais escritos por Tiradentes, os peritos alcançaram um alto nível de certeza sobre a autoria.
“”Nesse caso dos documentos ou desse documento que foi analisado do Tiradentes, a gente conseguiu chegar ao nível mais alto da nossa escala de conclusão. Essas evidências indicaram fortemente que essa era hipótese é mais plausível e que realmente os lançamentos foram produzidos pelo Tiradentes”, concluiu Acir.”
Depois da morte de Tiradentes, o livro passou por diferentes mãos, incluindo o governo colonial e o Arquivo Nacional, em Santa Catarina, retornando a Minas Gerais apenas em 1984. Atualmente, está no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, e uma réplica faz parte da exposição permanente.
A confirmação da autoria das anotações revela um Tiradentes mais complexo, com contato direto com ideias revolucionárias. Para Alex Calheiros, diretor do Museu da Inconfidência, “modifica tudo, porque a inconfidência também sempre foi vista como um movimento político organizado e feito sobretudo pelas elites. Agora a gente tem um homem do povo que estava participando intelectualmente disso”.
As anotações incluem traduções de textos em francês e trechos sublinhados, indicando passagens que chamaram a atenção de Tiradentes. Entre os temas abordados, está o modo de escolha dos representantes de uma província, mostrando que ele já pensava em eleições e formas de governo para Minas Gerais.
A historiadora Heloisa Starling destacou a importância do achado:
“”Tiradentes está mandando um recado. Vamos pensar a liberdade. Vamos pensar uma sociedade, com direitos, com a democracia”.”
Segundo ela, a confirmação das anotações amplia o entendimento sobre o símbolo da Inconfidência Mineira, reforçando seu papel como referência de liberdade e como personagem fundamental para pensar o presente e o futuro do Brasil.

