No dia 17 de abril de 2026, o Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, anunciou a reabertura do Estreito de Ormuz para o comércio. A reação interna foi imediata, com comentaristas e veículos semi-oficiais questionando o momento e a linguagem de sua declaração.
Em resposta, no sábado, as forças armadas iranianas declararam que o estreito estava novamente fechado devido ao bloqueio naval dos Estados Unidos. A sequência de eventos foi interpretada por alguns setores da imprensa americana como um sinal de divisão entre a liderança política do Irã e os militares associados ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC).
A análise sugere que aqueles dispostos a negociar podem não ter mais o apoio das forças que detêm o verdadeiro poder no Irã. Contudo, essa interpretação simplifica uma realidade complexa, pois não há uma distinção clara entre a tomada de decisões políticas e militares na República Islâmica.
Desde o início da guerra, o poder no Irã se concentrou em um núcleo militar e de segurança, reduzindo o espaço para flexibilidade visível. O sistema está sob pressão de duas frentes: a diplomacia coercitiva de Donald Trump do exterior e uma base ideológica interna que vê qualquer sinal de flexibilidade como fraqueza.
A questão mais relevante é: quem toma as decisões no Irã atualmente? A autoridade sobre questões de guerra e diplomacia tem se deslocado para um núcleo militar-coeso, que inclui o IRGC, o Conselho Supremo de Segurança Nacional (SNSC) e figuras políticas com laços profundos com o establishment de segurança.
As instituições civis não desapareceram, mas seus papéis foram redefinidos. Elas não atuam mais como centros independentes de direção estratégica, mas implementam decisões moldadas em outros lugares. Isso explica por que a ideia de que um diplomata sênior poderia sinalizar uma mudança de política sem autorização prévia é enganosa.
O SNSC, que sempre foi um corpo decisório chave, agora é mais dominado por figuras militares. Mohammad Bagher Zolghadr, atual secretário do SNSC, é um comandante sênior do IRGC. Ahmad Vahidi, comandante interino da Guarda Revolucionária, é outra figura importante no sistema.
A ascensão de Mohammad Bagher Ghalibaf, ex-comandante da Guarda Revolucionária e atual presidente do parlamento iraniano, deve ser entendida nesse contexto. Sua importância reside menos em sua posição formal e mais em sua visibilidade como rosto político do núcleo de segurança que emergiu em Teerã desde a guerra.
O papel do Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, também é questionado. Ao contrário de seus predecessores, ele não é um líder supremo absoluto, mas uma voz dentro de um processo de construção de consenso entre elites de segurança. Essa mudança reflete a natureza transitória do momento atual e o equilíbrio de autoridade em evolução na República Islâmica.
A divisão mais significativa no Irã hoje não é entre instituições civis e militares, mas dentro do campo duro que sustenta o establishment de segurança do país. De um lado, estão os elites orientados para a segurança, como Ghalibaf, que veem a diplomacia como um instrumento a ser usado junto com a pressão militar. Do outro lado, há uma corrente mais ideológica, ligada ao ultra-durão Jebhe-ye Paydari, que é menos flexível e vê qualquer ajuste visível como capitulação.
O episódio do Hormuz revelou um sistema em transição, onde uma nova ordem centrada na segurança coexiste com remanescentes do antigo arranjo híbrido que se formou ao longo de décadas sob Ali Khamenei. Essa mudança de poder não é uma simples fragmentação, mas uma reconfiguração complexa em que o líder supremo parece operar menos como um árbitro final e mais como um participante em um consenso liderado pela segurança.


