O endividamento crescente no Brasil reflete o impacto negativo da inflação e das altas taxas de juros sobre as famílias, segundo agências de classificação de risco. William Foster, vice-presidente sênior do grupo soberano da Moody’s Ratings, afirmou: “Ambas corroeram a capacidade de pagamento das famílias, particularmente daquelas que dependem de empréstimos sem garantia ou com taxas flutuantes, apesar de um mercado de trabalho forte.”
As agências de classificação de risco atuam como medidoras do cenário econômico e são utilizadas por investidores para decisões financeiras. Embora as casas consultadas não vejam o endividamento das famílias como uma ameaça significativa à economia no momento, alertam que a situação pode prejudicar o crédito a longo prazo se continuar a aumentar sem controle.
Foster destacou que o aumento do endividamento e dos empréstimos não produtivos pode pressionar o crescimento econômico e o sistema bancário, elevando os riscos à estabilidade financeira. A Moody’s, no entanto, acredita em cortes progressivos na taxa de juros do Banco Central.
A taxa básica Selic, que até a metade de março estava em 14,75% ao ano, é a mais alta em duas décadas. Apesar do corte de 0,25 ponto percentual, a política monetária permanece restritiva. Dados do Banco Central mostram que, mesmo com juros elevados, os brasileiros continuam a tomar empréstimos, com um recorde de saques por pessoas físicas em dezembro de 2025.
O número de famílias com renda comprometida para pagar dívidas atingiu o maior nível da série histórica em janeiro. Renato Donatti, diretor sênior da Fitch Ratings, enfatizou que “a desalavancagem das famílias fica muito comprometida” em um ambiente de juros altos, e que a inadimplência eleva as taxas de juros.
Foster também observou que as taxas de juros no Brasil são estruturalmente mais altas do que na maioria das economias do mundo, devido a características do Sistema Financeiro Nacional, como a alta participação de dívida com taxa flutuante e dívida indexada à inflação. “Grandes mudanças na taxa básica de juros são frequentemente necessárias para afetar materialmente os custos de empréstimo”, ponderou.
Rodolpho Sartori, economista da Austin Rating, acrescentou que a dificuldade do brasileiro em lidar com finanças e a falta de educação financeira contribuem para o endividamento. Ele destacou que a promoção de linhas de crédito facilitadas cria um ambiente propenso ao risco, e que a regulação sobre crédito precisa ser mais clara.
Sartori também mencionou que o governo está apostando na liberação do FGTS para pagamento de dívidas como uma solução temporária, mas que a principal causa do endividamento é o nível das taxas de juros. “Uma queda significativa nas taxas de juros proporcionaria o maior alívio a longo prazo para famílias e empresas”, afirmou Foster.
O economista da Austin reforçou que a medida apresentada é de caráter conjuntural e que programas educacionais devem ser priorizados. Ele indicou que há um interesse eleitoral no combate ao endividamento, uma vez que o governo percebe falta de popularidade nesse aspecto. Antes que os juros caiam, Sartori destacou que a gestão Lula ainda precisa resolver questões fiscais.


