A artista e escritora americana Tessa Hulls se destacou ao se tornar a segunda quadrinista a vencer o Prêmio Pulitzer, uma honraria que ela compartilhou neste ano com o Prêmio Eisner, considerado o Oscar da indústria de quadrinhos. Sua graphic novel, Meus Fantasmas (Quadrinhos na Cia), explora a história de três gerações de mulheres de sua família, começando com sua avó, Sun Yi, que fugiu da China comunista para Hong Kong no final dos anos 1940.
A narrativa aborda o colapso mental de Sun Yi e o impacto que isso teve em sua filha, Rose, mãe de Tessa, gerando um ciclo de dor e codependência. Hulls também reflete sobre sua própria jornada para confrontar o passado e curar a relação com sua mãe. Em uma entrevista, ela discute seu processo criativo e a indústria dos quadrinhos.
Sobre a tendência de quadrinistas resgatarem histórias familiares, Hulls afirma:
““Acredito que não podemos definir o presente sem entender o que deu origem a ele.””
Ela destaca que a globalização e a internet facilitaram o acesso à informação, permitindo que as pessoas compreendam melhor suas histórias familiares.
Hulls compartilhou que sua mãe leu algumas páginas de seu trabalho, mas não conseguiu ler a obra finalizada devido a um avanço severo no quadro de Alzheimer.
““A demência fez com que nós duas entendêssemos como a nossa relação mudou, porque assumi o papel de cuidadora.””
Em relação ao papel das mulheres na indústria dos quadrinhos, Hulls faz um paralelo com sua experiência no rugby, onde percebeu diferenças significativas entre os gêneros. Ela afirma:
““Como os quadrinhos são uma esfera tradicionalmente dominada por homens, as mulheres precisaram trazer muito mais desse movimento e dinamismo para a indústria.””
Hulls, que desenha inteiramente à mão, explica seu processo criativo:
““O texto e a imagem evoluem em uníssono.””
Ela evita o processo tradicional de quadrinhos, preferindo uma abordagem mais fluida.
A artista expressa sua gratidão por ser a segunda quadrinista a ganhar um Pulitzer, reconhecendo a importância de Art Spiegelman e seu trabalho Maus na abertura de espaço para novas vozes.
““Ganhar esses prêmios me fez repensar meus valores como artista.””
Hulls também reflete sobre o impacto da Inteligência Artificial na arte, afirmando que as pessoas buscam autenticidade, algo que a IA ainda não consegue replicar. Ela acredita que a marca humana na arte será cada vez mais valorizada.
Durante suas viagens à China em 2016 e 2018, Hulls aprendeu sobre sua identidade e a complexidade da história. Ela observa:
““Não há lugar no mundo onde eu seja ‘menos chinesa’ do que na China.””
O título original de seu livro, Feeding Ghosts, foi traduzido como Meus Fantasmas, e Hulls confia na escolha da editora brasileira.
Por fim, a quadrinista revela que está trabalhando em novos projetos, incluindo jornalismo em quadrinhos com cientistas de campo, abordando temas como a onda de calor nos oceanos do Alasca e sequoias em Yosemite.


