Empresários goianos manifestaram-se contra o fim da escala 6×1, revelando uma divergência que vai além da economia. A nota apresentada por essas entidades expressa uma visão de mundo que muitos consideram atrasada e desconectada da realidade de milhões de trabalhadores brasileiros.
Ao descrever a redução da jornada de trabalho como uma ‘ameaça’, os empresários demonstram uma preferência pelo alarmismo patronal. Historicamente, qualquer avanço social é tratado como um risco, e direitos trabalhistas são frequentemente apresentados como desastres iminentes. Essa situação não é nova; já ocorreu em relação a férias remuneradas, 13º salário, licença maternidade, descanso semanal e limitação da jornada de trabalho.
Um ponto crítico da nota é o silêncio sobre a saúde física e mental dos trabalhadores. A escala 6×1 impõe uma rotina de exaustão, onde os trabalhadores dedicam seis dias para descansar apenas um. Muitas vezes, esse único dia de folga é consumido por tarefas domésticas e recuperação física, gerando ansiedade para a semana seguinte.
Falar em produtividade sem considerar o cansaço crônico e o adoecimento psicológico é uma abordagem que ignora a realidade. Um trabalhador exausto não é apenas uma vítima social, mas também um problema econômico, pois produz menos e tem maior propensão a faltas e demissões.
Enquanto vários países discutem a redução da jornada de trabalho, parte do empresariado brasileiro ainda vê o descanso como um privilégio. Experiências internacionais mostram que a redução da jornada pode aumentar a produtividade e melhorar a saúde mental dos trabalhadores. A resistência a essas mudanças pode estar ligada a um modelo de negócios que depende da exaustão da força de trabalho.
Outro aspecto da manifestação empresarial é a superficialidade técnica. O debate sobre jornada de trabalho envolve diversas áreas do conhecimento, mas algumas entidades optam por publicar notas apressadas baseadas em previsões genéricas de desastre, sem dados robustos ou diálogo com estudos existentes.
A crítica de que a proposta é ‘eleitoreira’ também merece destaque. Propostas políticas buscam apoio social, tanto para trabalhadores quanto para empresários. No entanto, quando se trata de melhorar a vida dos trabalhadores, a discussão frequentemente se transforma em ‘populismo’. Essa seletividade revela um problema maior: a resistência a propostas que beneficiam quem não está no topo da pirâmide.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 transcende o âmbito trabalhista; é uma questão civilizatória. Trata-se do tipo de país que desejamos ser: um que valoriza tecnologia, produtividade e dignidade, ou um que se apega à lógica de extrair o máximo de pessoas cansadas pagando o mínimo possível. Empresários sérios poderiam liderar esse debate, mas muitos optam por espalhar medo e ignorar evidências.


