A recuperação de rios urbanos, conhecida como renaturalização, está se tornando uma estratégia importante no Brasil para enfrentar a intensificação de chuvas extremas e enchentes nas grandes cidades. Experiências em Curitiba, Campinas e São Paulo mostram que a reabertura de córregos e a ampliação de áreas verdes podem ajudar a reduzir alagamentos e melhorar a gestão da água urbana.
Historicamente, a urbanização no Brasil tratou rios e córregos como obstáculos, levando à canalização, retificação ou enterramento desses cursos d’água. Isso diminuiu a capacidade natural de absorção da água da chuva. “A urbanização das cidades é extremamente complexa, mas a requalificação dos rios não é apenas desejável, é absolutamente fundamental para enfrentarmos um cenário climático cada vez mais desafiador”, afirma Cecília Herzog, paisagista e integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.
Herzog destaca que a impermeabilização do solo urbano gera um custo crescente. “É importante lembrar que a água não desaparece. Com a chuva, ela sempre vai correr para os pontos mais baixos e, em algum momento, pode inundar essas áreas, principalmente nas regiões mais planas ou de baixada.” A discussão sobre renaturalização se alinha ao conceito de Soluções Baseadas na Natureza, promovido por organismos como o Banco Mundial e a União Internacional para a Conservação da Natureza.
Embora o conceito tenha ganhado força recentemente, exemplos práticos existem há décadas. O Parque Barigui, em Curitiba, criado nos anos 1970, atua como uma bacia natural de retenção de cheias. “Esse exemplo mostra que é possível, e cada vez mais necessário, reintegrar a natureza ao desenvolvimento urbano”, afirma Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.
Ela ressalta que áreas degradadas podem perder até 52% da disponibilidade hídrica em períodos de seca, enquanto regiões com vegetação nativa apresentam uma redução entre 6% e 11%. Em Campinas, o Parque Portugal, na Lagoa do Taquaral, também funciona como um reservatório natural. “A cidade possui um planejamento para ampliar o uso de infraestruturas baseadas na natureza, com parques lineares ao longo de rios, inclusive em áreas socialmente vulneráveis”, afirma Herzog.
Na capital paulista, onde muitos córregos foram soterrados, surgem iniciativas para reverter esse modelo. Um exemplo é o projeto de renaturalização do Córrego do Bixiga, previsto no futuro Parque Municipal do Bixiga. O plano inclui reabrir o curso d’água, preservar nascentes e ampliar áreas verdes em um terreno no centro da cidade. “Se isso é possível em um lugar tão urbanizado quanto São Paulo, também é possível em muitos outros locais do país”, afirma Herzog.
A renaturalização é frequentemente combinada com outras intervenções, como jardins de chuva, telhados verdes e bacias de retenção, que ajudam a infiltrar e retardar o escoamento da água. “Essas estruturas permitem reter temporariamente a água, favorecer a infiltração no solo e a evapotranspiração pelas plantas”, explica Juliana Baladelli Ribeiro. Essas medidas também ajudam a reduzir ilhas de calor, um fenômeno crescente em áreas urbanas.
Para especialistas, iniciativas isoladas não serão suficientes diante das mudanças climáticas. “Será necessário compor um sistema de requalificação da paisagem urbana, devolvendo áreas com solo vivo e vegetação nativa capazes de desempenhar funções ecológicas importantes”, diz Juliana. Herzog reforça que a adaptação deve ser territorial, incluindo intervenções de pequena escala até obras maiores, dependendo das características de cada cidade. Com eventos extremos mais frequentes, a renaturalização de rios se torna central nas estratégias urbanas e econômicas das cidades brasileiras.

