O quilombo Kalunga, localizado na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, celebra a conquista de um tombamento histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O território abrange mais de 260 mil hectares e é composto por 39 comunidades, onde vivem cerca de 8 mil quilombolas.
A comunidade Kalunga é marcada pela ancestralidade e resistência. A palavra “Kalunga”, de origem bantu, está relacionada ao sagrado. O líder quilombola Cirilo dos Santos Rosa, de 71 anos, destacou a importância da preservação da identidade cultural: “Para nós ser quilombola é um grande tesouro que temos, mas, para isso, nós temos que preservar a nossa identidade cultural, que está no nosso sangue.”
Os Kalungas têm uma história que remonta a mais de 300 anos, quando africanos escravizados fugiam das fazendas de garimpo e se uniam a povos indígenas. O reconhecimento do território como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural pelo governo de Goiás ocorreu em 1991, e a Fundação Cultural Palmares reconheceu o território em 2000.
Em 2004, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) iniciou a regularização das terras. O quilombo foi reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o primeiro Território e Área Conservada por Comunidades Indígenas e Locais (Ticca) do Brasil. Atualmente, a agricultura familiar e o turismo de base comunitária são fundamentais para a autonomia do povo Kalunga.
O tombamento, conforme o Iphan, representa o reconhecimento oficial e a proteção legal de sítios que guardam a memória da resistência quilombola. O convênio entre o Iphan e o Sebrae visa viabilizar recursos para o “Inventário dos Bens Culturais e das Potencialidades Econômicas das Comunidades Quilombolas Kalunga”. A gestora de turismo do Sebrae, Priscila Vilarinho, mencionou que a previsão para a finalização do processo de tombamento é para 2028, dependendo de fatores logísticos e climáticos.
Dominga Natália Moreira dos Santos Rosa, de 37 anos, é uma das representantes da comunidade e vê o reconhecimento como uma forma de fortalecer modos de vida e tradições. Ela ressaltou a importância de um processo participativo, onde a comunidade decide o que deve ser registrado. Cirilo também enfatizou que o reconhecimento é essencial para garantir segurança e proteção contra invasões.
Vilmar Kalunga, prefeito de Cavalcante, destacou a conquista simbólica do tombamento após quase dois séculos sem representação direta no poder municipal. Ele afirmou que o tombamento é uma ferramenta de proteção e valorização do patrimônio coletivo. A memória da comunidade é preservada através da oralidade e iniciativas como a Casa Memória da Mulher Kalunga, criada por Marta Faria da Silva, que busca dar visibilidade às histórias das mulheres quilombolas.

