Em abril de 2026, Juiz de Fora enfrentou uma tragédia com a chuva que resultou em 66 mortes. O evento expôs a ocupação irregular de áreas de risco, como morros e encostas, que são inadequadas para moradia.
Desde 2018, o município está entre as 10 localidades com maior população em áreas de risco, conforme o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O doutor e mestre em Engenharia Civil, Jordan Henrique de Souza, atribui a tragédia à combinação de um temporal extremo, o relevo acidentado e a ocupação urbana em áreas vulneráveis.
Jordan, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explica que a topografia da cidade, caracterizada por ladeiras e morros, foi moldada por processos naturais. Com o crescimento urbano, áreas antes não ocupadas passaram a receber moradias, muitas vezes sem considerar as características do terreno.
Ele destaca que o relevo não é o problema principal, mas sim a forma como a ocupação ocorreu ao longo das décadas. “O que não foi ocupado por encosta foi ocupado por vale, e o que não tem risco de desmoronar tem risco de inundar”, afirmou.
Jordan também menciona que a preocupação com ocupações em áreas sensíveis não é nova. Registros históricos indicam atenção a algumas regiões desde o fim do século XIX, como o bairro Dom Bosco, em um contexto de falta de políticas habitacionais.
Os impactos das chuvas se dividiram em duas categorias: problemas em áreas próximas a cursos d’água e movimentação de encostas. “Quanto mais íngreme, maior a chance de movimentos de massa”, ponderou. A saturação do solo foi seguida por escorregamentos, agravando alagamentos em áreas baixas, como o Bairro Industrial.
No Morro do Cristo, houve deslizamento de terra e queda de rochas. Jordan alertou sobre os riscos de incêndios em períodos de seca, que podem influenciar escorregamentos durante as chuvas. “A retirada da vegetação deixa o solo mais vulnerável”, disse.
Após os estragos, o professor defendeu a importância de uma cidade resiliente, capaz de enfrentar eventos extremos. Ele ressaltou que o debate sobre resiliência é antigo e precisa ser adaptado à realidade local. “O mais importante é não perder vidas”, concluiu.

