Músicos trans utilizam a arte como forma de resistência e preservação de histórias, afirmando que a música garante o direito à memória de pessoas trans. O artista Mickael Pederiva, de 25 anos, usa sua banda de rock folk para expor sentimentos e combater o silenciamento da trajetória transmasculina em Brasília.
Mickael Pederiva, estudante de direito e design musical, transformou o violão em um símbolo de preservação de sua história. Ele passou por um processo de quatro anos de reestruturação vocal após o início da transição hormonal. Para ele, soltar a voz é garantir que a trajetória de pessoas transmasculinas não seja silenciada.
A obra de Mickael ecoa a trajetória de Anderson Herzer, escritor transmasculino que viveu sob a ditadura militar. Poemas de Herzer, escritos na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), foram transformados em melodia em um projeto do Instituto de Cultura, Arte e Memória LGBT. Essa iniciativa gerou a composição “João Ninguém”, premiada em 2020.
A preservação histórica também se conecta à perda de uma amiga trans, em 2019. Esse evento motivou a criação de uma lei distrital de retificação de nome e gênero pós morte. Mickael comentou que “Pessoas LGBT de uma forma geral não costumam ter direito à memória. Mas a gente não morre, né? Vira purpurina”.
A banda de Mickael conta atualmente com Letícia Mayr, de 29 anos, autista, que toca com ele. Ambos encontraram na música um meio de se expressar. O artista lamentou a complexidade de garantir um espaço de segurança contra a transfobia para todos os envolvidos na produção musical.

