Documentos históricos mostram que escravizados no século XIX utilizavam cadernetas de poupança para acumular recursos e comprar a própria liberdade. A pesquisa, defendida por Denise Rodrigues, analisou registros bancários e processos judiciais para entender o processo de formação do pecúlio.
A Caixa Econômica do Império iniciou suas atividades no Rio de Janeiro em 4 de novembro de 1861. Doze dias depois, uma mulher escravizada abriu a caderneta número 59, depositando 50 mil réis. Em 1865, ela sacou os valores acumulados para comprar sua liberdade. A ação evidenciava a ambiguidade jurídica do Império, que tratava escravizados como propriedade, mas reconhecia sua capacidade de acumular recursos financeiros.
A pesquisa observou que, embora não houvesse lei que permitisse o acúmulo de pecúlio por escravizados na época, o costume de acumular economias era praticado por trabalhadores em diversas ocupações. A formalização desse direito ocorreu em 1871, com a Lei do Ventre Livre, que reconheceu expressamente o uso desses recursos para adquirir a alforria.
A dissertação conclui que, enquanto a instituição bancária já aceitava depósitos de escravizados antes da lei, as cadernetas de poupança se tornaram essenciais para a autonomia financeira, transformando o pecúlio de um costume tolerado em um direito positivado.

