O consumo constante de áudios e vídeos tem sido estudado por especialistas, que alertam para o risco de vício e dessensibilização cerebral. Pesquisas indicam que brasileiros consomem em média 10 horas semanais de podcasts, enquanto americanos ouvem quase quatro horas diárias de áudio.
O hábito de buscar estímulos sonoros preenche a rotina de muitos, como o caso de uma fotógrafa paulista de 31 anos, que relatou que o silêncio se tornou um incômodo após morar sozinha. Ela afirmou que passou a depender de podcasts, audiolivros e vídeos, chegando a não conseguir dormir sem algum ruído.
Segundo o psiquiatra Alaor Carlos de Oliveira Neto, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o consumo prolongado de áudio ou vídeo ativa os mesmos sistemas de recompensa cerebral que outras substâncias. Ele explicou que essa estimulação contínua provoca uma regulação negativa, e a interrupção abrupta do som pode gerar sintomas de abstinência, como ansiedade ou irritação.
A psicóloga Carla Cavalheiro, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, comentou que a sociedade vende a ideia de que o estímulo constante é necessário. Ela disse que momentos de tranquilidade são essenciais para a saúde mental, pois permitem diálogos internos importantes para a construção da identidade.
Para equilibrar essa demanda sonora, a psicanalista Michèle Mayer aconselha aceitar os próprios limites, afirmando que a impossibilidade de saber tudo convida o indivíduo a escolher e dar sentido às suas experiências.

