O filósofo Slavoj Zizek argumenta que a ideologia se torna mais potente quando os indivíduos acreditam ter superado a manipulação. Segundo Zizek, a crença na racionalidade e na liberdade protege o ser humano de ilusões coletivas, mas essa percepção é, na verdade, um mecanismo ideológico.
A visão tradicional de ideologia, inspirada no marxismo, definia-a como uma ‘falsa consciência’, um conjunto de crenças equivocadas que impediam a visão da realidade social. Zizek considera essa definição insuficiente. Ele explica que as pessoas frequentemente reconhecem que certos discursos são manipuladores, mas continuam agindo como se acreditassem neles. A ideologia, portanto, não se restringe ao pensamento, mas está incorporada às práticas e instituições do cotidiano.
O filósofo aproxima-se da psicanálise de Jacques Lacan ao afirmar que a relação com a realidade é mediada por um universo simbólico. Nesse contexto, o ‘objeto sublime’ — seja uma nação, o mercado ou uma marca — recebe valor extraordinário não pelo que é, mas pelo significado simbólico que a coletividade projeta nele. Isso se manifesta em fenômenos como o consumo, onde a escolha individual é moldada por algoritmos e campanhas.
A tese ganha nova atualidade na era digital. Zizek aponta que a ideologia não desapareceu com o acesso à informação; ela se tornou mais sofisticada e invisível. Sistemas tecnológicos aprendem os hábitos dos usuários e oferecem conteúdos que reforçam visões de mundo pré-existentes, fazendo com que o indivíduo se sinta autônomo enquanto seus desejos são previstos.

