Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) concluiu que o movimento social de combate à Aids no Brasil perdeu força política nas últimas décadas. A pesquisa, conduzida por Helena Achcar, aponta que a desmobilização não se deve apenas à redução de recursos, mas também à fragmentação das organizações e à crescente medicalização da resposta à epidemia.
O Brasil é referência internacional na resposta ao HIV, tendo sido pioneiro na oferta gratuita de tratamento e construído uma política de saúde com participação de movimentos sociais, pesquisadores e governo. No entanto, o ativismo, forte nas décadas de 1980 e 1990, passou por transformações significativas.
A pesquisadora Achcar utilizou conceitos da sociologia de Pierre Bourdieu para analisar o movimento como um campo de disputa. Ela observou que a mudança no perfil da epidemia, com maior alcance a populações vulneráveis, alterou a dinâmica interna do ativismo. Questões de sobrevivência passaram a competir com pautas políticas.
Outro fator apontado é a crescente medicalização da resposta ao HIV a partir dos anos 2010. A valorização de soluções biomédicas, como o discurso sobre o possível “fim da Aids”, reduziu o espaço para discussões sociais e políticas, segundo Achcar. A lógica de gestão técnica também pressionou organizações a se profissionalizarem.
Achcar alerta que a Aids não pode ser vista como um problema resolvido. Para a pesquisadora, a retomada da força do movimento depende da reconstrução de alianças e do enfrentamento das desigualdades sociais relacionadas ao HIV.

