Sintomas como cansaço persistente, tontura e fraqueza muscular são frequentemente associados a problemas de saúde mental. Contudo, especialistas alertam que em doenças neurológicas raras, esses sinais podem ser o início de condições graves, dificultando o diagnóstico.
O desafio diagnóstico reside na natureza pouco específica das manifestações iniciais. O neurocirurgião Vinícius Trindade, do A.C.Camargo Cancer Center, explica que as condições podem começar com sintomas leves, facilmente rotulados como burnout ou depressão. Segundo ele, essa dificuldade não é falha médica, mas decorre da baixa frequência dessas doenças na prática clínica.
O médico geneticista Rodrigo Fock, do Instituto Jô Clemente, chama esse fenômeno de psicologização, quando sintomas neurológicos são atribuídos a causas emocionais. Ele cita a miastenia gravis, em que a força muscular piora progressivamente, quadro frequentemente confundido com estresse. Em casos de esclerose lateral amiotrófica (ELA), tropeços podem ser vistos como problemas ortopédicos.
O atraso no diagnóstico é um obstáculo significativo. Um levantamento da organização europeia Eurordis indica que cerca de um em cada quatro pacientes com doença rara consulta mais de cinco médicos antes de obter o diagnóstico correto. Esse tempo prolongado pode comprometer a evolução clínica, como ocorre na neuromielite óptica e na miastenia gravis, onde o tratamento precoce evita sequelas.
Lilian R. F. de Souza, psicóloga do A.C.Camargo Cancer Center, aponta que a interpretação dos sintomas é influenciada pelo estresse causado pela própria doença. Ela defende que a avaliação clínica deve adotar o modelo biopsicossocial, exigindo atuação multiprofissional para um cuidado integral ao paciente.


