O aumento do endividamento familiar no Brasil tem origem estrutural ligada ao ambiente macroeconômico. Especialistas afirmam que programas como o Desenrola oferecem alívio no curto prazo, mas não alteram as condições que levam ao superendividamento.
Dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que oitenta vírgula nove por cento das famílias possuem algum tipo de dívida. A Serasa registrou oitenta e três vírgula nove milhões de pessoas inadimplentes em julho, sendo o cartão de crédito o principal fator nesse quadro. O governo lançou o segundo programa Desenrola, renegociando quarenta e quatro vírgula um bilhões de reais em três meses, com desconto médio de oitenta e dois por cento.
Contudo, analistas avaliam que o programa não ataca a raiz do problema. André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV/Ibre, explicou que o Desenrola foca em dívidas antigas, enquanto novos atrasos continuam alimentando a inadimplência. Ele comparou a situação a esvaziar uma banheira com a torneira aberta.
João Mário de França, pesquisador do FGV/Ibre, destaca que o cenário de juros altos penaliza as famílias. Ele observou que o crédito acessível a elas se concentra em rotativo de cartão, cheque especial e crédito não consignado. Em junho, o rotativo do cartão estava em quatrocentos e quarenta e dois vírgula quatro por cento ao ano, segundo o Banco Central.
A facilidade de acesso a crédito por plataformas digitais também contribui para o aumento de dívidas. França apontou que essas instituições estimulam empréstimos insustentáveis, pois seu modelo de negócio compensa perdas com juros elevados. Para uma redução duradoura, o especialista defende intervenção regulatória nas financeiras.


