O romance ‘Os armários vazios’, estreia de Annie Ernaux, recebe sua primeira edição no Brasil. A obra, publicada em 1974, narra a experiência de uma universitária grávida em contexto social difícil na França.
Em maio de dois mil e vinte e dois, antes de conquistar o Prêmio Nobel de Literatura, Ernaux foi tema de uma publicação francesa. Nela, ela citou uma carta de Simone de Beauvoir de 1974. Beauvoir escreveu que é normal ser incompreendido ao escrever um livro deliberadamente ambíguo, mas acreditava que Ernaux possuía “algo a dizer e muito talento”.
A trama central de ‘Os armários vazios’ não foca na autora, mas em Denise Lesur, estudante universitária grávida. Ela está na casa de mulheres que auxiliam em abortos clandestinos. A personagem relaciona sua gravidez indesejada à sua origem social humilde, contrastando com o mundo que ela busca romper ao ingressar em escola particular.
A narrativa detalha a condição social da família de Denise, que administra um café-mercearia. A personagem descreve a higiene precária de sua infância. Ao estudar, Denise percebe o abismo social, desenvolvendo um sentimento de repulsa em relação aos pais.
Os leitores identificam semelhanças entre a trajetória de Denise e a vida de Ernaux. Embora o livro não trate o aborto com a mesma exposição de obras posteriores, a intenção da autora é expor violências sofridas pelo corpo, buscando que o silêncio sobre essas questões não prevaleça.

