O musical “Gil Andar com Fé” estreia em São Paulo, contando a trajetória de Gilberto Gil. A peça usa o exílio do artista nos anos setenta como ponto de partida para discutir como a arte confrontou a repressão da ditadura militar brasileira.
O espetáculo, dirigido por Miguel Falabella e estrelado por Gui Ventura, reflete sobre um movimento cultural do final dos anos 1960. Segundo Falabella, a produção busca homenagear uma geração que “salvou” o cenário artístico da caretice absoluta.
A cenografia remete a vanguardas artísticas brasileiras, com rampas que lembram esculturas de Lygia Clark e bandeirinhas inspiradas em pinturas de Alfredo Volpi. A narrativa também aborda a influência africana, citando a viagem de Gil a Lagos, na Nigéria, em 1977, e o contato com o afrobeat de Fela Kuti.
A jornada do cantor é conduzida pelo personagem mítico Tempo-Rei, interpretado por Guga Barbosa. O dramaturgo Newton Moreno construiu a peça a partir do exílio como um alerta contra o autoritarismo. O ator Gui Ventura, ao interpretar Gil, buscou uma divindade próxima do humano, evitando a caricatura.
O musical também toca em momentos pessoais, como o fim do casamento do artista com Sandra Gadelha, que inspirou a canção “Drão”. A obra retrata a sutileza da poesia de Gil para lidar com a censura, como no incidente de 1973, quando microfones foram desligados em um evento em São Paulo.

