O urbanista Alain Bertaud, referência mundial em planejamento e economia urbana, afirmou que as cidades brasileiras precisarão competir pela atração de pessoas para manter o crescimento econômico diante do envelhecimento populacional. O especialista abre, nesta quinta-feira (27), o 4º Encontro Cidades Responsivas, em Porto Alegre.
Bertaud argumenta que o erro histórico de gestores públicos foi focar na atração de empregos enquanto negligenciam a oferta de terras e infraestrutura de habitação acessível. Com a redução da natalidade, cidades que conseguirem atrair jovens de outras regiões serão as únicas a preservar postos de trabalho e expandir.
O cenário é reforçado por dados do IBGE, que projetam que a população com 60 anos ou mais no Brasil deve subir de 35,4 milhões para 75,3 milhões em 45 anos. No mesmo período, o número de brasileiros com até 14 anos deve cair de 41,6 milhões para 23,8 milhões.
Sobre a habitação, o urbanista criticou o modelo do programa Minha Casa, Minha Vida. Segundo Bertaud, a escolha de terrenos periféricos baratos cria complexos murados e isolados, sem comércio ou serviços básicos. Para idosos, essa monofuncionalidade residencial é considerada um modelo terrível, pois prejudica a acessibilidade a consultórios médicos e serviços essenciais.
O especialista também analisou o impacto do controle territorial por facções criminosas no Rio de Janeiro. Ele afirmou que as barreiras impostas por grupos armados destroem o comércio local e impedem a mobilidade dos trabalhadores. Bertaud disse que a insistência do governo em tratar favelas bem localizadas como áreas ilegais abriu espaço para que criminosos ditassem as regras.
Quanto ao trabalho remoto, Bertaud defendeu a flexibilização do zoneamento urbano para permitir a abertura de cafés e padarias em bairros residenciais. Ele refutou a tese de que as cidades perderiam a relevância, citando que empresas de tecnologia e finanças estão exigindo o retorno presencial para aumentar a produtividade por meio de interações informais.

