A utilização de influenciadores criados por inteligência artificial cresce no Brasil a dois meses da eleição presidencial, com avatares que mimetizam pessoas comuns para disseminar críticas políticas. A tendência desafia a Justiça Eleitoral, já que personagens sintéticos não podem ser multados ou processados como os criadores de conteúdo humanos.
Um exemplo desse fenômeno é a personagem Dona Maria, uma idosa negra que critica o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em vídeos no TikTok e Instagram. A influenciadora, que acumula milhões de visualizações, é inteiramente gerada por IA e controlada por Daniel Santos, motorista de aplicativo de 38 anos e morador do Rio de Janeiro.
Pesquisadores do Observatório IA nas Eleições identificaram 18 avatares sintéticos participando do debate político online. Desse grupo, 11 não apresentavam aviso informando que o conteúdo era produzido por inteligência artificial. Diferente de humanos, esses perfis podem ser replicados em várias contas e modificados rapidamente para produzir múltiplas variações de uma mesma mensagem.
A Justiça Eleitoral exige a identificação de conteúdos manipulados por IA e prevê a remoção de ataques à democracia ou mentiras sobre urnas eletrônicas. Contudo, a fiscalização é complexa porque as autoridades precisam rastrear os financiadores e distribuidores reais por trás dos avatares para aplicar sanções.
O impacto ocorre em um cenário de alta conectividade. Segundo pesquisa LatAm Pulse, realizada pela AtlasIntel em julho, 63% dos mais de 150 milhões de brasileiros conectados seguem influenciadores para obter informações políticas. Mais de 70% dos entrevistados acreditam que esses criadores digitais podem influenciar a votação.
A tecnologia também chegou aos eventos de campanha. Em julho, uma versão digital de Jair Bolsonaro, que está inelegível e em prisão domiciliar, apareceu em um telão no lançamento da campanha de seu filho, Flávio Bolsonaro. O PT questionou o uso do material no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alegando impulsionamento por contas anônimas.
Para Joscimar Silva, professor de ciência política da Universidade de Brasília, a IA torna as campanhas mais artificiais e torna mais tênue a linha entre realidade e ficção. A psicóloga comportamental Débora Gonçalves, de Curitiba, afirma que a ideia de que as pessoas são imunes a mensagens online é um mito, pois os seres humanos são moldados pelos ambientes informacionais.


