A Prefeitura do Rio de Janeiro implementou, desde agosto, um protocolo de rastreamento de dependência em apostas on-line nas unidades de Atenção Primária, incluindo Clínicas da Família e Centros Municipais de Saúde (CMS). A estratégia utiliza duas perguntas durante as consultas de rotina para identificar precocemente o vício e encaminhar pacientes e familiares ao tratamento.
As respostas dos pacientes são registradas no prontuário e, em caso de resultado positivo, os profissionais avaliam a necessidade de acompanhamento. O modelo segue a lógica já aplicada para a detecção de tabagismo e depressão. O secretário de Saúde do Rio, Rodrigo Prado, afirmou que a medida visa o tratamento precoce, já que a dependência costuma estar atrelada a quadros de insônia, ansiedade e depressão.
Nos primeiros sete dias de aplicação, 22 dos 3.070 pacientes entrevistados — quase 1% do total — declararam sentir necessidade de apostar. Outros 15 admitiram ter mentido para parentes sobre os valores gastos com jogos. Dependendo do risco, o paciente recebe orientações básicas ou é encaminhado para equipes multiprofissionais e atenção psicossocial.
A decisão ocorreu após a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) notar o aumento na procura por auxílio relacionado a apostas. Uma análise prévia do Núcleo de Inteligência Assistencial (NIA) identificou 1.368 pessoas com relatos de sofrimento associado ao vício. O perfil predominante é de homens com idade mediana de 37 anos, embora tenham sido registrados 25 casos de menores de 18 anos.
Entre os familiares afetados, 85% são mulheres, com idade mediana de 45 anos, sendo a maioria esposas ou mães dos apostadores. O protocolo prevê o acolhimento dessas famílias mesmo quando o apostador recusa o tratamento. Os agentes comunitários de saúde e demais profissionais passaram por capacitação oferecida pelo Ministério da Saúde.
No âmbito federal, o Ministério da Saúde disponibiliza teleatendimento especializado via aplicativo Meu SUS Digital, com oferta de 100 mil consultas mensais gratuitas. De acordo com o governo, quase 9% dos mais de 27 mil cadastros no serviço são de residentes do Rio de Janeiro.
Paralelamente, o Programa de Dependências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) também registrou alta procura. O médico psiquiatra Marcelo Santos Cruz explicou que a rapidez e a disponibilidade ininterrupta das plataformas de apostas via celular diferenciam o vício atual de modalidades anteriores, como cassinos e jóqueis.

