A atriz, diretora e dramaturga Rafaela Azevedo estreia nesta quarta-feira (2), no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, o solo “A igreja da Fran”. O espetáculo, que já passou por São Paulo, aborda a relação entre o patriarcado e as religiões cristãs, expandindo a discussão sobre machismo iniciada em seu trabalho anterior.
A montagem é o segundo monólogo de uma trilogia protagonizada pela personagem Fran. Para a construção do texto, a autora de 35 anos realizou uma pesquisa de um ano sobre controvérsias do cristianismo. Durante o processo, a artista relatou ter sido impactada por dados de pedofilia na Europa, citando 440 mil crianças abusadas na Espanha e 230 mil na França.
A recepção ao projeto gerou resistências. A atriz informou a perda de cerca de 20 mil seguidores nas redes sociais durante a divulgação e relatou que o Teatro Ópera de Arame, em Curitiba, cancelou uma apresentação após reações de grupos religiosos. O perfil da personagem no Instagram também foi derrubado, fato que a artista atribui ao mesmo movimento.
A dificuldade em conseguir patrocínios levou a produção ao financiamento coletivo, que arrecadou R$ 100 mil com a contribuição de 652 pessoas. Segundo a dramaturga, marcas evitaram o projeto por medo de perder público devido ao tema, que ela classifica como tabu.
No palco, a encenação utiliza luz fria e fundo branco para remeter à estética de templos evangélicos. Projeções de matérias jornalistas sobre crimes cometidos por líderes cristãos integram o cenário. O figurino, desenvolvido com Bruno Pimentel, mescla túnicas papais a roupas sensuais para expor o que a atriz define como a hipocrisia da religião.
O texto utiliza trechos da Bíblia e figuras como Maria, Jesus e Adão para questionar a desumanização de personagens femininos. Rafaela, que é palhaça de formação, afirma que usa o humor para quebrar barreiras, mas sem fazer piada da religião para não suavizar a gravidade dos problemas abordados.
O terceiro ato da trilogia, ainda em desenvolvimento, pretende unir os temas de religião e política para analisar o aspecto institucional do patriarcado no Brasil.


