Um chefe do Comando Vermelho (CV), custodiado no Presídio Gabriel Ferreira de Castilho, acompanhou ao vivo a tortura de duas mulheres em maio, na comunidade do Risca Faca, em São Gonçalo. As vítimas, acusadas de aplicar golpes, tiveram os cabelos raspados e foram obrigadas a realizar uma caminhada vexatória sob escolta armada.
As investigações da Polícia Civil indicam que Flávio Vieira Bento, conhecido como Mumu do Tuiuti, atuou como juiz do chamado tribunal do tráfico. As mulheres foram levadas a uma área de mata chamada Mineirão, onde sofreram agressões com pauladas, socos e chutes durante horas. O caso tornou-se público após a divulgação de vídeos nas redes sociais em que as vítimas repetiam a frase: “Nunca mais vou dar golpe na favela”.
Durante a apuração, a polícia descobriu que os criminosos forçaram as vítimas a tentar fraudar o processo. Imagens de câmeras de segurança registraram as mulheres em um cartório, usando perucas e bonés, acompanhadas por dois homens. No novo depoimento, elas negavam o crime do tráfico e afirmavam ter sido agredidas por outras mulheres, versão que foi descartada devido às filmagens da tortura.
O episódio resultou no primeiro indiciamento com base na Lei Antifacção, especificamente pelo crime de domínio social estruturado, com penas que variam de 20 a 40 anos de prisão. Ao todo, 15 pessoas foram denunciadas e duas foram presas. A Secretaria de Estado de Polícia Penal (Seppen) informou que Flávio Vieira Bento foi transferido para a Penitenciária Laercio da Costa Pellegrino e colocado em isolamento, com pedido de mudança para o Regime Disciplinar Diferenciado.
Segundo o delegado Paulo Saback, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), esses tribunais funcionam como um mecanismo de substituição do Estado para monopolizar a força e a autoridade. As punições, que variam conforme a hierarquia do Comando Vermelho (CV) e do Terceiro Comando Puro (TCP), podem incluir desde advertências e expulsões até mutilações e execuções.
A DRE cita outros casos de controle social, como a execução de um morador em Cascadura em 2024, suspeito de ligação com facção rival, e a tortura de dois usuários de drogas em Mesquita, em setembro do ano passado, após a venda de uma geladeira. O delegado afirmou que a estrutura de violência é utilizada para disciplinar moradores e integrantes do grupo, sem qualquer garantia de defesa ou produção de provas.


