A alta no número de recuperações judiciais e o recorde de 9,1 milhões de empresas inadimplentes em junho, segundo a Serasa Experian, impulsionam fundos de situações especiais no Brasil. Gestoras de recursos buscam captar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão para investir em ativos estressados com retornos projetados de até 32% ao ano.
Os fundos de special situations operam comprando dívidas de companhias em dificuldade por valores abaixo do face ou financiando empresas a taxas elevadas em troca de garantias. O lucro advém da renegociação desses papéis ou da execução de garantias, processos que costumam levar anos para serem concluídos.
Flávio Aragão, sócio da 051 Capital, compara o momento atual ao período pós-governo Dilma Rousseff e à pandemia de Covid-19. A gestora prepara a captação de um fundo multimercado fechado de R$ 500 milhões. Segundo Aragão, a pressão por repactuações e a aversão ao risco causada pelas eleições presidenciais tornam o cenário favorável a longo prazo.
A Möbius Capital também estuda captar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão ainda este ano. Com R$ 1 bilhão sob gestão, a casa utiliza estratégias de crédito estruturado e ativos judiciais. Renato Herkenhoff, sócio-fundador da gestora, afirma que um de seus veículos apresenta retorno de 32% ao ano, ou CDI mais 17%, focando em empresas que superem ciclos econômicos longos.
A diversificação dos ativos agora atinge setores antes distantes desse modelo, como o de energia elétrica. No entanto, Aragão alerta que investidores qualificados — aqueles com mais de R$ 1 milhão investidos — e profissionais devem analisar os riscos detalhadamente para evitar perdas no mercado.
Outras visões divergem sobre a magnitude da oportunidade. Arnaldo Braga, sócio e gestor de crédito da Neo Investimentos, afirma que as recuperações judiciais já eram esperadas e que a concorrência entre fundos reduz os prêmios. Braga aponta que juros altos e a desaceleração econômica podem criar as chamadas “empresas zumbi”, que não quebram, mas deixam de remunerar acionistas.


