Uma equipe de geólogos da Universidade de Florença, na Itália, identificou uma liga metálica inédita na Terra formada durante a explosão da bomba atômica lançada sobre Hiroshima, no Japão, em 1945. O material, encontrado em um grão de dez micrômetros, foi detalhado em estudo publicado em julho na revista Science Advances.
A liga surgiu segundos após a detonação da bomba Little Boy. A bola de fogo atingiu temperaturas superiores a 7.000 °C, vaporizando prédios, solo e metais em um raio de dois quilômetros. O resfriamento rápido subsequente congelou arranjos atômicos raros antes que se transformassem em estruturas simples.
As partículas vítreas, chamadas hiroshimaítas, foram localizadas nas areias da Baía de Hiroshima pelo geólogo Mario Wannier em 2019. A equipe do geólogo Luca Bindi analisou 34 dessas partículas com microscópios eletrônicos, testes químicos e difração de raios X de cristal único.
Em uma das amostras, os pesquisadores localizaram um fragmento composto por ferro, cromo, silício, níquel, molibdênio, manganês e alumínio. Embora a composição lembre o aço inoxidável, a distribuição e o arranjo dos átomos são diferentes de qualquer liga industrial conhecida.
O grão incomum apresentou um arranjo cúbico complexo derivado do beta-manganês. A análise revelou que apenas um grão com essa característica foi localizado, o que indica a raridade do fenômeno. O físico Michael Widom, da Universidade Carnegie Mellon, disse que a descoberta revela um mundo de materiais praticamente inexplorado.
Bindi afirmou que o valor científico do achando não pode ser separado da catástrofe humana que o criou. O ataque dos Estados Unidos matou cerca de 100 mil pessoas.


