O Canal do Panamá começa a restringir o número de embarcações que transitam pela via navegável nesta sexta-feira (4), reduzindo o tráfego diário de 36 para 32 navios. A medida é uma resposta à seca severa provocada pelo fenômeno El Niño, que afeta a operação de eclusas e a disponibilidade de água doce.
As autoridades do canal também reduziram o calado permitido para as embarcações, a profundidade em que ficam submersas, que passou de 15,24 para 14,63 metros. O governo do Panamá declarou estado de emergência para lidar com as instabilidades climáticas. A via, que liga os oceanos Pacífico e Atlântico, é responsável por 5% do comércio global.
O sistema de 80 km depende de água da chuva armazenada em lagos artificiais para operar as eclusas. Cada navio em trânsito consome cerca de 200 milhões de litros de água. Segundo Erick Cordoba, gerente de recursos hídricos do canal, o déficit acumulado de chuvas entre abril e agosto ficou 35,8% abaixo da média histórica.
A estimativa é que a seca dure até meados de 2027. Jorge Quijano, ex-administrador da via, informou que cada redução de 30 centímetros no calado faz com que um navio perca a capacidade de transportar cerca de 200 contêineres. O impacto deve ser sentido principalmente no setor de contêineres, maior fonte de receita do canal.
A crise ocorre em um momento de aumento de tráfego na rota, impulsionada pelo conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, que paralisou parte do fluxo no Estreito de Ormuz. A analista Natasha Lindstaedt, da Universidade de Essex, afirmou que o aumento de custos pode afetar o comércio dos EUA, destino ou origem de 70% dos contêineres que cruzam o canal.
Para mitigar efeitos futuros, a autoridade do canal planeja construir um novo reservatório de 4.600 hectares no rio Indio. A obra, porém, tem previsão de conclusão apenas para 2031. A bacia hidrográfica da região também é a fonte de água potável para metade dos 4,6 milhões de habitantes do país.


