Organizações criminosas brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), diversificaram a atuação para o comércio clandestino de mercadorias na última década. O contrabando entre Brasil e Paraguai movimenta cerca de R$ 60 bilhões anualmente, segundo estudo do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras (Idesf).
O montante movimentado ilegalmente é quase o dobro da balança comercial oficial entre os dois países, que fechou 2025 em US$ 7,4 bilhões (R$ 38 bilhões). De acordo com o Ministério Público Federal (MPF), apenas entre 5% e 10% das mercadorias de contrabando e descaminho que entram no Brasil pela fronteira são apreendidas.
A transição para o comércio ilegal começou com cigarros, avançando para combustíveis, bebidas, medicamentos e, recentemente, canetas emagrecedoras. Luciano Barros, presidente do Idesf, explicou que as facções aplicaram a expertise do tráfico de drogas para dar escala ao fluxo, substituindo pequenas remessas em carros por caminhões com mix de produtos, incluindo agrotóxicos.
Os lucros são expressivos: cigarros clandestinos rendem 507%, seguidos por celulares e brinquedos, ambos com 390%. O custo de distribuição para esses grupos é de apenas 22%. Esse capital é utilizado para recrutar funcionários, adquirir armamentos e corromper agentes do Estado.
No setor farmacêutico, as apreensões de remédios somaram mais de R$ 100 milhões nos últimos cinco anos. As canetas emagrecedoras tiveram salto expressivo: a Receita Federal apreendeu 2.544 unidades em 2024, número que subiu para 30.011 no ano seguinte. Para os primeiros seis meses de 2026, a projeção é de 150 mil unidades apreendidas.
Sérgio Luis Stinglin, delegado-executivo da Polícia Federal em Foz do Iguaçu, afirmou que a lógica na fronteira é financeira e não de disputa territorial. Segundo o delegado, perder mercadoria contrabandeada é menos oneroso que no tráfico de drogas, e as penas para prisões eventuais são menores.
Rodolpho Ramazzini, diretor da Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF), disse que a atuação ocorre onde há alta tributação e baixa fiscalização. Em cidades como Foz do Iguaçu, Guaíra e Ponta Porã, a logística da ilegalidade serve como fonte de renda para as chamadas mulas.


