A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) alerta para a negligência no cuidado com a saúde mental de mulheres que enfrentam a perda gestacional. O tema ganha destaque durante o Setembro Amarelo, campanha nacional de prevenção ao suicídio, para combater a falta de assistência de familiares e profissionais de saúde.
A perda gestacional, que ocorre quando há a interrupção involuntária da gravidez até a 20ª semana, é considerada um evento traumático. Segundo o obstetra Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo, o quadro pode provocar ansiedade, irritabilidade, culpa e sensação de vazio, independentemente da idade gestacional.
Entre 15% e 20% das gestações não evoluem, conforme dados do obstetra Eduardo Felix Martins Santana, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Santana defende a proatividade médica para aproximar a paciente do cuidado familiar e profissional, evitando que a mulher chegue ao consultório apenas quando já apresenta depressão.
A psiquiatra Andréa Cristina Galastri, professora do Instituto de Educação Médica (Idomed), explica que a queda hormonal após a perda, que dura cerca de 15 dias, impacta a saúde mental. O quadro torna-se grave quando a mulher apresenta paralisia da vida, perda de apetite e insônia persistente por mais de um mês, casos que exigem psicoterapia e medicação para reajuste bioquímico.
Diante da escassez de espaços de acolhimento, algumas mulheres recoram a redes de apoio digitais. Kalyane Ribeiro, de 34 anos, reside em Campinas (SP) e criou uma comunidade no TikTok e o livro “Ainda me Sinto Mãe” para reunir mulheres de diversas idades que vivenciaram a experiência.
O Ministério da Saúde orienta que pessoas com pensamentos suicidas busquem apoio em familiares, Unidades Básicas de Saúde, Centros de Atenção Psicossocial (Caps) ou no Centro de Valorização da Vida (CVV), por meio do telefone 188.


