O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), utilizou um relatório de inteligência da Polícia Federal (PF) para apontar indícios de irregularidades na atuação do ministro André Mendonça. O documento, que não possui assinatura, cita supostas interferências na corporação, em acordos de colaboração premiada e tentativas de atingir o senador Davi Alcolumbre (União-AP).
O material foi enviado por Moraes ao presidente do STF, Edson Fachin, na última quinta-feira. O despacho ocorreu após Mendonça divulgar mensagens trocadas entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master. Em resposta, Mendonça enviou um vídeo a aliados e líderes religiosos agradecendo mensagens de apoio, gravação que circulou entre políticos de direita nesta sexta-feira (5).
Um dos trechos do relatório levanta a hipótese de que investigações sobre Antonio Rueda, presidente do União Brasil, serviriam para chegar a Alcolumbre. O texto menciona atritos entre o senador e Mendonça desde 2021, quando Alcolumbre presidia a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e retardou a sabatina do ministro. O relatório classifica o senador como “provável alvo estratégico”, embora atribua baixo grau de confiança a essa hipótese.
O documento compara a celeridade de Mendonça em pedidos da PF: uma medida contra o senador Jaques Wagner (PT-BA) levou nove dias, enquanto o caso de Ciro Nogueira (PP-PI) demorou 29 dias e o do ex-governador Cláudio Castro, 75 dias. O texto sugere correlação entre o tempo de análise e o perfil do investigado, mas ressalva que a amostra é reduzida e seletiva.
A atuação de Mendonça em negociações de delação nas operações Sem Desconto e Compliance Zero também é questionada. O relatório afirma que o ministro teria tido comportamento participativo nas tratativas, perguntando sobre o estágio dos acordos e elementos trazidos por colaboradores, o que poderia invadir a competência das autoridades responsáveis.
O relatório relata ainda que Mendonça teria manifestado desconfiança sobre o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, por proximidade com o presidente da República, e sobre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, por proximidade com Gilmar Mendes. O texto indica que o ministro teria exercido “poderes típicos de presidência da investigação” em casos do INSS e do Banco Master.
O documento é classificado no cabeçalho como “documento de trabalho”, de “difusão restrita” e “sem valor probatório”. O texto diferencia informações documentadas de relatos de servidores e juízos do analista, atribuindo baixo grau de confiança a suspeitas de direcionamento de investigações e a falas não formalizadas sobre integrantes da PF e da PGR.


