Minorias sociais, incluindo mulheres negras e a população LGBTQIAPN+, apresentam maior prevalência de dor crônica e maior carga de sofrimento do que a população geral. Segundo a cinesiologista Mariana Schamas, coordenadora do curso Dor e Movimento do HCX USP, fatores como racismo estrutural e sexismo influenciam a forma como a dor é sentida e tratada.
Uma revisão sistemática brasileira publicada em 2012 no Brazilian Journal of Pain indicou que a prevalência de dor crônica no Brasil varia entre 23% e 76%, com média de 45,6%. O estudo apontou que a condição é mais frequente entre mulheres, resultado que não pode ser explicado apenas por questões biológicas, mas por sobrecarga de trabalho, violência e a tendência de ter queixas minimizadas.
A situação é mais grave para pessoas negras. Dados de estudos internacionais revelam que esse grupo recebe menos analgésicos e aguarda mais tempo por atendimento médico. Além disso, os relatos de dor de pessoas negras são subestimados em comparação aos de pessoas brancas.
A população LGBTQIAPN+ também registra índices elevados de dor crônica. Pesquisa publicada na revista PAIN encontrou prevalência de 17,2% entre heterossexuais, 21,7% entre gays e lésbicas, 23,7% entre bissexuais e 27% entre pessoas com outras identidades sexuais. O sofrimento psicológico foi o fator com maior associação a essas diferenças.
Experiências persistentes de preconceito, insegurança e violência mantêm o organismo em estresse prolongado. Esse estado produz alterações neurobiológicas que aumentam a sensibilidade e favorecem a cronificação da dor, independentemente da presença de uma lesão física.
O modelo biopsicossocial, referência mundial, considera aspectos psicológicos e sociais além dos biológicos. O tratamento baseado nessa abordagem exige a compreensão da história de vida e do contexto social do paciente para enfrentar as barreiras de acesso e a desigualdade no cuidado à saúde.


