Documentos da Operação Forja de Hefesto, da Polícia Federal, e apurações do Ministério Público Federal (MPF) revelam que a cassiterita extraída ilegalmente da Terra Indígena Yanomami e do Parque Nacional dos Campos Amazônicos abasteceu a cadeia de suprimentos de empresas como Apple, Microsoft, Amazon, Sony e Disney.
A fundidora White Solder, com sede em Ribeirão Preto (SP) e filiais em Manaus (AM) e Ariquemes (RO), tornou-se ré na Justiça. A empresa é acusada de liderar um esquema de receptação e refino que movimentou ao menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025. Registros da Polícia Federal apontam que, apenas entre maio e agosto de 2021, foram escoadas mais de 525 toneladas do minério de forma ilegal.
O MPF identificou que a White Solder utilizava a Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil (Coopertin), sediada em Boa Vista (RR), para emitir notas fiscais falsas. O objetivo era simular que o minério provinha de lavras autorizadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM). Em um período de cinco meses, a White Solder foi responsável por 97,6% dos créditos da cooperativa, totalizando R$ 166,3 milhões.
A investigação cruzou relatórios da fundidora com a base de dados da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC), confirmando a empresa como fornecedora de gigantes listadas nas bolsas americanas. Dez multinacionais com atuação no Brasil foram notificadas por falhas nos mecanismos de due diligence socioambiental e de direitos humanos.
O procurador André Luiz Porreca, do 2º Ofício da Amazônia Ocidental, explicou que a ação busca a responsabilidade objetiva e solidária das compradoras. O MPF estabeleceu uma indenização de R$ 1,7 bilhão com caráter pedagógico e reparatório por danos ambientais e morais coletivos. A cobrança baseia-se na tese de que as empresas de tecnologia devem demonstrar a legitimidade do estanho adquirido.
No território Yanomami, a extração envolvia logística de aviação clandestina e uso de mercúrio. Dario Kopenawa, presidente da Associação Hutukara Yanomami, afirmou que a procura por cassiterita tem impulsionado novas invasões e a devastação da floresta. Além da White Solder e da Coopertin, foram denunciados os empresários Alessandro Saccoman Torrente, Filipe José da Silva Galvão, Jidalias dos Anjos Pinto, Rodrigo Martins de Mello e Valdeci Aparecido Cardoso.


