Dezenas de pessoas utilizaram câmeras analógicas e equipamentos digitais dos anos 2000 nos primeiros quatro dias do Rock in Rio 2026, na Barra Olímpica. O resgate de tecnologias antigas reflete um cansaço do imediatismo da era hipertecnológica e a preferência por estéticas de imagem com menor definição.
Thiago Soares, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em cultura pop, explica que a volta desses equipamentos ocorre devido ao esgotamento da dinâmica das telas e das práticas ultradigitalizadas. Segundo Soares, parte da juventude, incluindo a Geração Z, desenvolve uma recusa ao imediatismo, aderindo a estéticas como a cultura do vinil, do cassete e das câmeras antigas.
O interesse pelas câmeras digitais compactas foca na imperfeição da imagem, como cores saturadas, granulação e flash estourado, contrastando com a alta definição dos celulares atuais. A tendência acompanha a volta da moda Y2K e do uso de iPods entre jovens adultos.
Gabriela Baratela, de 30 anos, e Kelvim Fraga, de 34, utilizaram uma câmera de filme com 72 poses durante a espera pelo show de Elton John. Baratela, consultora de viagens, afirmou que a espera pela revelação das fotos permite viver o festival sem a necessidade de tirar registros a todo momento.
Outros frequentadores adotaram versões específicas, como a câmera digital à prova d’água usada por Marcella Gribler, de 20 anos, no show de Calvin Harris. A estudante relatou que o equipamento cria um ritual de registro para momentos específicos, evitando a exposição do celular sob chuva e priorizando fotos espontâneas.
A tendência é impulsionada por influenciadores nas redes sociais, que divulgam modelos compactos das marcas Canon, Sony, Nikon e Fujifilm. Marcas presentes no evento também aproveitaram o modismo distribuindo mini câmeras retrô em camarotes.
Vittoria Alves, comunicóloga de 20 anos, afirmou que o uso do equipamento é uma forma de registrar o festival sem a finalidade exclusiva de postagens em redes sociais, criticando a tendência atual de filmar tudo e curtir menos a experiência.


