A indústria da construção civil estima que a extinção da jornada de trabalho 6×1 exigiria a contratação de 288 mil novos profissionais para compensar a redução da carga semanal de 44 para 40 horas. O setor alerta que esses trabalhadores não estão disponíveis no mercado, o que pode elevar os custos de mão de obra em até 15%.
A preocupação ocorre enquanto a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, na quarta-feira (2), o relatório da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala. O texto ainda passará por dois turnos de votação no plenário da Casa. Construtoras relatam dificuldades para preencher vagas de pedreiros, carpinteiros, armadores, serventes e operadores de máquinas.
Yorki Estefan, presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), afirmou que a carência de profissionais disponíveis impede o atendimento à demanda. Ele explicou que a redução dos dias trabalhados pode gerar ociosidade de equipamentos pesados em fundações e aumentar prazos de execução em estruturas e revestimentos de fachada, já que são atividades sequenciais.
Simulações do setor indicam que um prédio residencial que levaria 30 meses para ser concluído passaria a demandar 33 meses. O sábado é utilizado como reserva técnica para recuperar tempo perdido por chuvas ou falta de insumos. Segundo Estefan, a obra demandaria mais tempo e capital, pressionando o fluxo de caixa de empreendimentos com datas de entrega já firmadas.
A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) calcula que o impacto financeiro seria de R$ 155,6 bilhões por ano. Ely Wertheim, vice-presidente da Cbic, defendeu um encaminhamento que não penalize o setor, citando contratos firmados sob as regras vigentes. A entidade argumenta que o peso seria maior na habitação popular, onde a mão de obra representa a maior parte do custo.
A Associação Brasileira de Incorporadoras (Abrainc) estima que os preços dos imóveis subiriam cerca de 5,5%, o que retiraria 2,5 milhões de famílias do acesso ao financiamento habitacional. O impacto atingiria também programas financiados por recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), reduzindo o número de moradias entregues com o mesmo volume de verba.
Representantes da construção afirmam que a tecnologia e a industrialização ainda não compensam a redução da jornada no curto prazo. A Cbic e o SindusCon-SP defendem que qualquer alteração seja acompanhada de um período de transição e de debates sobre o aumento da produtividade para evitar prejuízos aos prazos e custos.


