A continuidade das chuvas nas montanhas do Nepal mantém a região em alerta para novos deslizamentos, inundações e avalanches, segundo o Centro Internacional de Desenvolvimento Integrado de Montanhas (ICIMOD). O aviso ocorre após o colapso da geleira do pico Langtang Lirung, que causou a morte de mais de mil pessoas em agosto.
O desastre provocou mudanças profundas na criosfera da região de Kiyrong-Rasuwa, com a formação de lagos em áreas elevadas e a queda brusca de sedimentos de 5 mil metros para 2 mil metros de altitude. A área do vale do rio Lhende Khola transformou-se em um mar de lama e detritos. Atualmente, o governo nepalês mantém dois lagos glaciais sob vigilância.
O pesquisador sênior Sher Muhammad, do ICIMOD, explicou que a dinâmica do evento é semelhante ao desastre ocorrido em 2021 na porção indiana do Himalaia, em Chamoli. Naquela ocasião, um colapso de rochas e glaciares resultou em enchentes devastadoras. Muhammad defende que o monitoramento de geleiras, encostas e rios deve ser tratado como um sistema de risco conectado.
Para o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera (INCT Criosfera), Jefferson Simões, a piora climática pode reduzir a aderência entre o glaciar e a rocha. Segundo Simões, o acúmulo de água contribui para a quebra de rochas em montanhas com vertentes íngremes, especialmente quando há proximidade com zonas habitadas.
Embora autoridades locais e a Organização das Nações Unidas (ONU) apontem o perigo do aquecimento global, os especialistas afirmaram que não há elementos para atribuir o colapso em Rasuwa exclusivamente a esse fenômeno. Muhammad ponderou que, embora o aquecimento afete a estabilidade das montanhas, não se pode definir como a causa direta do evento.
O especialista paquistanês defende a implementação de monitoramento sistemático por satélite, complementado por câmeras, sensores sísmicos e medidores de rios. A estratégia visa aprimorar os sistemas de aviso precoce e a evacuação de áreas de risco para reduzir as consequências de colapsos naturais.


