Um adolescente de 16 anos ficou detido por três dias em uma cela comum na delegacia de Colatina, no Noroeste do Espírito Santo, devido à falta de vaga no Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo (Iases) em Linhares. O jovem aguardava transferência após ser apreendido por posse ilegal de armas.
A legislação proíbe que adolescentes em conflito com a lei permaneçam em delegacias, que devem ser utilizadas apenas para registro de flagrantes e procedimentos policiais. Durante a detenção, a equipe da TV Gazeta, acompanhada pelo Ministério Público, entrevistou o adolescente no dia 26 de fevereiro. Ele relatou as condições precárias do local: “Quente demais. Fede demais. Pior coisa que tem é o chão frio, muito ruim. Estou esperando uma vaga para internação”.
A delegacia não possui estrutura adequada para manter adolescentes internados. A mãe do jovem informou que, durante os três dias de detenção, precisou levar comida e água diariamente, pois o local não fornecia nada. “Estou trazendo a alimentação dele desde terça-feira. Não fornece nada, nem água. Até água eu estou trazendo”, disse.
A Justiça havia determinado a internação do adolescente, mas um documento do Iases indicou a falta de vagas na unidade de Linhares, que atende adolescentes do Norte e Noroeste do estado. O jovem foi colocado em uma lista de espera. O promotor de Justiça Marcelo Volpato destacou que, no último ano, mais de 30 negativas de internação foram registradas na região.
A falta de vagas em unidades socioeducativas é um problema persistente. Em 2016, a Justiça determinou a construção de uma unidade em Colatina para reduzir a superlotação em Linhares, mas até hoje a obra não foi realizada. A unidade de Linhares possui 90 vagas, consideradas insuficientes para atender a demanda.
Em 2018, a superlotação levou à liberação de 261 adolescentes da internação. Um levantamento do Ministério Público entre fevereiro e maio de 2025 revelou que a falta de vagas resultou na liberação definitiva de três adolescentes condenados à internação e na substituição de medidas socioeducativas para outros.
Após três dias na delegacia, o adolescente foi transferido para uma unidade do Iases em Cariacica, na Grande Vitória. O Tribunal de Justiça do Espírito Santo não se manifestou sobre a falta de medidas judiciais imediatas no caso. O Iases, por sua vez, informou que busca um local para a construção de uma nova unidade em Colatina, mas não deu prazo para o início das obras.


