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Canais misóginos no YouTube somam mais de 130 mil vídeos

Amanda Rocha
Tempo: 5 min.

Um levantamento do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) revelou que pelo menos 123 canais brasileiros que disseminam conteúdo contra mulheres estão ativos no YouTube. Esses canais somam mais de 23 milhões de inscritos e têm cerca de 130 mil vídeos publicados.

Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (9), após o Dia Internacional da Mulher, e atualizam um levantamento realizado em 2024, que mapeou 137 canais. Desde então, apenas 14 canais foram removidos, seja por iniciativa dos donos ou da plataforma. Além disso, 20 canais mudaram de nome, mas alguns continuam produzindo conteúdo misógino sob novas denominações.

O NetLab destacou que, além de permanecerem ativos, esses canais ganharam novos seguidores. A quantidade de inscritos aumentou 18,5% desde abril de 2024, com mais de 3,6 milhões de novas assinaturas. Os vídeos também geram receita para os criadores, com cerca de 80% utilizando alguma estratégia de monetização, como anúncios e programas de membros, além de vendas de e-books e transferências via pix.

“”Não é só a opinião deles, mas também é uma oportunidade de ganhar dinheiro, pautada na humilhação, inferiorização, na subjugação de mulheres,” explicou a pesquisadora do NetLab, Luciane Belín.”

Luciane também mencionou que o grupo desenvolveu um protocolo para identificar diferentes tipos de discurso misógino. “Nós trabalhamos com um conceito de misoginia que não está só concentrado no ódio e na promoção da violência direta, mas também nos sentimentos de desprezo e aversão, e na ideologia que parte do pressuposto de que as mulheres precisam ser subjugadas e inferiorizadas,” complementou.

O relatório indica que a popularização desses vídeos é um fenômeno recente. Embora o vídeo mais antigo tenha sido postado em 2021, 88% dos vídeos foram publicados a partir desse ano, e pouco mais da metade (52%) foi postada entre janeiro de 2023 e abril de 2024. Desde abril, cerca de 25 mil novos vídeos foram adicionados.

Para classificar quais canais disseminam conteúdo misógino, o estudo considerou apenas aqueles que continham pelo menos três vídeos com manifestações de ódio às mulheres. O tema mais recorrente, que abrange 42% dos vídeos, foi “Desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina.” Nessa categoria, foram incluídos vídeos que conclamam os homens a não se deixarem dominar pelas mulheres, ao mesmo tempo em que incentivam o desprezo por elas.

“”A gente encontrou conteúdos muito explícitos. Quando a gente olha para as palavras, por exemplo, que são usadas para descrever as mulheres, a gente identifica termos como ‘burra’ e ‘vagabunda’ que são muito usados. Isso foi, de certa forma, até uma surpresa, porque a gente pensava que a plataforma derrubava esse tipo de conteúdo,” disse Luciane.”

A pesquisadora também observou que alguns influenciadores utilizam estratégias para dissimular seu conteúdo, como o uso de abreviações e apelidos. Por exemplo, a palavra “mulher” é substituída por “colher”, e mães solo, um dos grupos mais atacados, são chamadas de “msol”. “Às vezes, a opinião não é expressada de forma verbal, mas quando você olha para as imagens que ilustram os vídeos, elas mostram a mulher ajoelhada aos pés do homem ou hipersexualizada com decotes imensos,” complementou.

Luciane cobrou mais responsabilização das plataformas. “A criminalização da misoginia seria um caminho que poderia contribuir para a minimização desses discursos, mas além da questão da criminalização, a gente também precisa continuar discutindo qual é o papel das plataformas em relação à soberania do país mesmo. Se é crime fora da internet, precisa ser crime dentro da internet.” A Google, empresa responsável pelo YouTube, foi procurada, mas ainda não respondeu à reportagem.

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