Corumbá, em Mato Grosso do Sul, tornou-se uma das principais rotas para o tráfico internacional de cocaína por meio de ‘mulas humanas’. A Polícia Federal (PF) e a Receita Federal informam que o esquema recruta pessoas em situação de vulnerabilidade na Bolívia para trazer a droga ao Brasil, com São Paulo sendo o principal destino.
Diariamente, entre 8 e 10 ônibus cruzam a fronteira entre a Bolívia e o Brasil, em Corumbá. Estima-se que cada veículo transporte até 8 pessoas com cápsulas de cocaína dentro do corpo. O delegado da Polícia Federal, Estevão Baesso de Oliveira, explica que os ‘coiotes’ escolhem as ‘mulas’, oferecem dinheiro, preparam a droga para ingestão e orientam sobre o trajeto.
O transporte por ingestão transforma o corpo humano em um ‘contêiner’, dificultando a fiscalização na fronteira. Especialistas alertam que essa prática impõe riscos severos à saúde dos envolvidos, podendo levar à morte imediata. Existem dois métodos comuns: o ‘body stuffer’, que engole pequenas quantidades de forma improvisada, e o ‘body packer’, que leva grandes quantidades em cápsulas planejadas.
Em 2025, a PF apreendeu cerca de 8,42 toneladas de cocaína, e nos primeiros meses de 2026, já foram apreendidas mais de uma tonelada. Corumbá é vista como uma rota estratégica para o tráfico, com a droga seguindo para Campo Grande e São Paulo, de onde pode ser exportada para outros países.
As autoridades destacam que o foco da PF vai além das prisões em flagrante. O objetivo é identificar as lideranças criminosas que lucram com essa logística. O tráfico por ingestão é um dos principais desafios no combate ao narcotráfico na região, devido à combinação de exploração de pessoas vulneráveis e fragilidades na fiscalização.
Na Bolívia, a preparação das ‘mulas’ ocorre principalmente em Santa Cruz de la Sierra, de onde seguem para Puerto Quijarro, na fronteira com o Brasil. As travessias são feitas em ônibus clandestinos, e a droga é distribuída entre os passageiros para evitar suspeitas.
Os flagrantes são geralmente constatados por meio de indícios como inconsistências nas respostas durante entrevistas, linguagem corporal suspeita e sinais característicos, como forte odor de látex na respiração. Quando há suspeita de transporte interno da droga, a pessoa é levada a uma unidade de saúde para exames de imagem.
O médico toxicologista Sandro Trindade Benites alerta que o rompimento de uma cápsula de cocaína no estômago pode ser fatal, provocando uma série de complicações de saúde. O antropólogo Guilherme Passamani ressalta que esse crime está ligado a condições de vida precárias, levando pessoas vulneráveis a aceitarem o risco em troca de dinheiro.

