O uso excessivo de celulares e dispositivos eletrônicos por crianças e jovens é uma preocupação crescente para autoridades de saúde. Dois documentos recentes de sociedades médicas do Brasil e dos Estados Unidos abordam essa questão, estabelecendo uma política de tolerância zero para bebês menores de 2 anos e destacando evidências de que essas tecnologias podem causar dependência.
Um dos documentos é um manual da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), divulgado em dezembro de 2025, que orienta pediatras sobre a aplicação do Estatuto da Criança e do Adolescente Digital (ECA Digital), que entra em vigor hoje, 17 de março de 2026. Nos Estados Unidos, a Academia Americana de Pediatria (AAP) publicou uma declaração em fevereiro sobre a relação de crianças e jovens com os ecossistemas digitais.
Ambos os documentos concordam que é necessário restringir o uso de redes sociais por crianças, incluindo barreiras que impeçam o acesso a essas plataformas antes da idade permitida. Além disso, enfatizam que controlar apenas o tempo de exposição não é suficiente; é fundamental também considerar a qualidade do conteúdo acessado.
A pediatra Evelyn Eisenstein, coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da SBP, alerta que o uso prolongado e não supervisionado das telas pode afetar a saúde física e mental das crianças, levando ao sedentarismo, comprometimento do sono e exposição a conteúdos perigosos. Isso pode resultar em transtornos alimentares, ansiedade e até atos de violência.
Para mitigar esses impactos, as sociedades médicas recomendam que pais e profissionais de saúde monitorem o uso de telas por menores. A SBP, em um manual de 2024, sugere focar em quatro letras C: conteúdo, contato, conduta e contratos, incluindo um alerta sobre o uso indevido de apostas por menores.
Os guias também oferecem recomendações de uso de dispositivos digitais por faixa etária. Para crianças com menos de 2 anos, a orientação é a ausência total de telas. Entre 2 e 5 anos, o uso deve ser limitado a uma hora diária, sempre com supervisão de um adulto. Após o início da idade escolar, o limite é de duas horas diárias, incluindo o tempo de estudo. Adolescentes podem ter até cinco horas diárias de exposição, evitando o uso noturno.
O psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, recomenda que as famílias estabeleçam um plano de uso de mídia, definindo horários e limites claros para todos os membros da casa. Ele ressalta a importância do exemplo dos pais, que devem evitar o uso de dispositivos durante as refeições e antes de dormir.
O documento da AAP enfatiza que o controle do uso de telas deve ser uma responsabilidade compartilhada entre médicos, pais e governos. A SBP destaca que o ECA Digital exige que as empresas criem ferramentas de verificação de idade e relatórios de auditoria sobre a moderação de conteúdo para o público infantojuvenil.
Para que os pais possam avaliar o conteúdo consumido por seus filhos, Zoldan sugere algumas perguntas: se o conteúdo é adequado para a idade, se estimula a aprendizagem e se está disponível em plataformas com excesso de publicidade. Conversar com as crianças sobre o que assistem e estimular o pensamento crítico são práticas recomendadas.
Se sinais de dependência, como consumo escondido e agressividade, forem identificados, os pais devem buscar ajuda especializada. Aumentar as oportunidades de lazer e convívio familiar, longe das tecnologias, é essencial para uma relação saudável com as telas.


