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Exposição no Rio de Janeiro aborda encarceramento e justiça social

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Uma exposição no Rio de Janeiro reúne obras de pessoas egressas do sistema prisional e de seus familiares. A mostra, intitulada Coexistir Coabitar, utiliza diferentes linguagens artísticas, como pintura, performance e vídeo, para refletir sobre encarceramento, desigualdades sociais e políticas públicas.

Entre os participantes, está o artista e biomédico Wallace Costa, de 29 anos, morador do bairro de Irajá, na zona norte. Ele apresenta a obra Cadeias de Vidro, composta por três telas em resina que revisitam a trajetória de seu pai na prisão e as marcas que isso deixou na família.

““Além dos rótulos que foram tatuados em mim, teve a época do regime semiaberto, em que tive que conviver com ele. Eu já era adolescente, e ele estava diferente. Nós tínhamos que ficar monitorando o aparelho da tornozeleira eletrônica que ele usava”, conta Wallace.”

Wallace relata que seu pai foi detido mais de uma vez, incluindo uma prisão de 11 anos. Após cumprir pena, ele passou pelo regime semiaberto e foi preso novamente em 2019, por um ano. A obra de Wallace inclui uma placa central que traz a réplica de um jornal que retratou seu pai como instigador de uma rebelião ocorrida em abril de 2004.

““O objetivo é tanto se ver na pele do outro quanto procurar se reconhecer em um reflexo distorcido de si mesmo”, explica.”

A jovem Larissa Rolando, de 20 anos, também participa da exposição. Detida entre fevereiro e maio do ano passado, ela descreve sua experiência no sistema prisional como “uma virada de chave” em sua vida. Mulher trans, Larissa relata que, apesar de ter documentos retificados, foi informada de que cumpriria pena em uma unidade masculina, o que a deixou apavorada.

““Eu fiquei com muito medo, muito medo. Um medo estratosférico mesmo, porque, na minha cabeça, eu ia ser estuprada e ia acontecer tudo de ruim. Mas a realidade foi bem diferente”, conta Larissa.”

Larissa enfrentou condições precárias de higiene e alimentação no presídio, mas considera que a experiência a tornou mais madura. Ela decidiu investir na escultura como sua principal forma de expressão artística, criando uma escultura de um coração empalado para a exposição.

““Quis trazer algo que falasse da minha experiência. E em todos os momentos da minha vida, desde que eu era criança, a música sempre esteve comigo”, explica Larissa.”

A exposição Coexistir Coabitar reúne obras de 27 artistas, resultado de uma residência artística realizada no Museu da Vida Fiocruz, voltada para egressos dos sistemas prisional e socioeducativo e seus familiares. O curador Jean Carlos Azuos destaca que as obras são baseadas nas histórias dos próprios participantes.

““As obras não partem de temas dados, mas de experiências reais”, diz Azuos.”

A programação da exposição inclui atividades educativas, como visitas mediadas, oficinas e rodas de conversa, ampliando o diálogo com o público.

Serviço
Exposição: Coexistir Coabitar
Local: Largo das Artes – Rua Luís de Camões, 02, Centro (1º andar)
Visitação: até 25 de abril de 2026
Horário: terça a sábado, das 10h às 17h
Entrada: gratuita

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