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Leitura: A música como ‘Agente Secreto’ na narrativa do cinema brasileiro
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Entretenimento

A música como ‘Agente Secreto’ na narrativa do cinema brasileiro

Amanda Rocha
Última atualização: 17 de março de 2026 19:41
Amanda Rocha
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Tempo: 4 min.
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O cinema brasileiro vive um raro momento de visibilidade internacional. As quatro indicações ao Oscar recebidas por O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, confirmam a força crescente de nossa cinematografia no cenário mundial. Embora a estatueta não tenha sido conquistada, a mobilização do público e a presença constante do filme em festivais revelam que o cinema brasileiro voltou a ocupar o imaginário internacional.

Ambientado em Recife no ano de 1977, o longa, protagonizado por Wagner Moura, mergulha no clima de tensão que marcou os anos finais da ditadura militar no Brasil. A atmosfera densa do filme é sustentada por uma arquitetura sonora sofisticada, onde a música desempenha um papel decisivo.

A trilha sonora de O Agente Secreto não apenas acompanha a narrativa, mas também atua como uma presença discreta, dissolvendo-se na linguagem do filme. Em vez de ilustrar os acontecimentos, a música opera nas entrelinhas, alimentando sugestões e enigmas.

Logo nas primeiras sequências, um samba de 1957, Samba no Arpège, de Waldir Calmon e Luiz Bandeira, abre uma fresta histórica, lembrando o breve intervalo democrático entre as ditaduras brasileiras. A música projeta uma memória coletiva, ambientando e contextualizando o filme.

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O jogo musical se torna mais engenhoso nas cenas em que o rádio atravessa a narrativa. Em um posto de gasolina, enquanto Wagner Moura aparece em cena, ouve-se ao fundo Eu Não Sou Cachorro Não, de Waldick Soriano. Em seguida, no Fusca amarelo do protagonista, toca If You Leave Me Now, do grupo Chicago. Apesar dos estilos distintos, o tema de abandono e vulnerabilidade é comum, criando um diálogo silencioso entre diferentes universos culturais.

Entre as músicas, emerge uma camada sonora que ultrapassa a escuta dos personagens. O violão de Heitor Villa-Lobos aparece no Estudo nº 2, interpretado por Geraldo Azevedo, e se mistura à psicodelia nordestina do álbum Paêbirú (1975), de Zé Ramalho e Lula Côrtes. Este disco, considerado um dos vinis mais raros da música brasileira, funciona como um eixo secreto da trilha, confundindo-se com a música original composta por Mateus Alves e Tomaz Alves Souza.

Na voz de Ângela Maria, a trilha encontra sua dimensão mais dramática em Não Há Mais Tempo (1964), que retorna em momentos decisivos da narrativa. A canção parece condensar o clima histórico do filme, refletindo o início de um período de exceção em que os sonhos coletivos começam a se fragmentar.

A trilha de O Agente Secreto não ilustra os acontecimentos, mas age nas sombras, sugerindo a ruína lenta das expectativas de um país. A música se torna, assim, um ‘agente secreto’ na narrativa. O compositor italiano Ennio Morricone nos lembra como a música pode transformar o cinema em uma experiência quase metafísica, revelando o que a imagem sozinha não consegue dizer.

A canção Pollo e Brace irrompe como um comentário irônico dentro da narrativa, misturando rock de garagem e psicodelia em uma combinação sonora surreal. A letra, construída a partir de um trocadilho típico do humor italiano, transforma um tema solene em uma brincadeira absurda, criando um efeito sonoro cômico e perturbador.

O Agente Secreto nos recorda que, no cinema, o que mais fala é muitas vezes aquilo que se ouve em silêncio.

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