A Human Rights Watch (HRW) acusou o governo de El Salvador, nesta segunda-feira, 16, de submeter cidadãos deportados dos Estados Unidos a desaparecimentos forçados e detenções arbitrárias.
Segundo a organização, alguns deportados foram presos assim que chegaram ao país e mantidos incomunicáveis, sem que as autoridades revelassem seu paradeiro ou apresentassem acusações formais.
Um relatório da HRW documenta ao menos onze casos de salvadorenhos expulsos dos EUA desde o início de 2025 que teriam sido detidos imediatamente após o retorno. Familiares e advogados relataram que as autoridades não informaram onde essas pessoas estão presas nem os motivos das detenções.
““Independentemente do histórico criminal dessas pessoas, elas têm direito ao devido processo legal e a serem levadas diante de um juiz”, afirmou a diretora para as Américas da HRW, Juanita Goebertus.”
A HRW destacou que “deportação não pode significar desaparecimento forçado.” Desde o início de 2025, mais de 9 mil salvadorenhos foram enviados de volta ao país, durante o cerco a imigrantes do segundo governo de Donald Trump.
A Casa Branca alegou que parte dos deportados teria ligação com a MS-13, uma das principais gangues do país, mas a HRW afirmou que não foram apresentadas provas que sustentem essa acusação na maioria dos casos. Dados analisados pela entidade indicam que apenas 10,5% dos deportados tinham condenação nos Estados Unidos por crimes violentos ou potencialmente violentos.
Parte dos deportados foi levada para o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), a megapenitenciária que simboliza a política de segurança de linha dura do governo do presidente Nayib Bukele.
Familiares tentaram localizar os parentes por meio do sistema online de detentos do ICE, mas não encontraram informações. Autoridades americanas informaram que os homens haviam sido deportados para El Salvador. Em alguns casos, parentes descobriram o possível destino dos detidos após recorrer à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
Outros entraram com pedidos de habeas corpus na Suprema Corte salvadorenha, mas um deles foi rejeitado por suposta falta de precisão nas informações, enquanto os demais ainda aguardam decisão.
Segundo a HRW, em respostas enviadas à CIDH, o governo salvadorenho informou que ao menos cinco dos deportados estão detidos no país — quatro na prisão de Santa Ana e um no CECOT — embora não tenha esclarecido a base legal para as detenções.
Um dos casos citados no relatório envolve Kilmar Ábrego García, deportado em março de 2025 devido a um “erro administrativo”. Ele foi devolvido aos Estados Unidos em junho por ordem de um juiz federal. Seus advogados relataram que o homem sofreu abusos físicos durante o período em que esteve detido em prisões salvadorenhas.
El Salvador vive sob estado de emergência desde março de 2022, medida adotada pelo governo Bukele para combater gangues, que suspendeu garantias como o direito de ser informado sobre os motivos da prisão e o acesso imediato a advogado, facilitando detenções prolongadas sem comunicação com familiares ou representantes legais.


