Uma policial militar de São Paulo, a cabo Kátia Cilene, superou experiências de violência doméstica e agora ajuda outras mulheres em situação de risco. Ela atuou por quase três décadas no atendimento de emergências pelo telefone 190 e, atualmente, faz parte da rede de proteção às vítimas de violência doméstica do Governo de SP.
Kátia, que se mudou de Recife para a capital paulista aos 19 anos, enfrentou episódios de violência em um relacionamento anterior. Um dos momentos mais críticos ocorreu quando contou ao ex-marido que havia sido aprovada no concurso da Polícia Militar. “Ele tentou me jogar para fora do carro no meio da rodovia durante uma discussão”, relatou.
Após ingressar na Polícia Militar, Kátia atuou na linha de frente do atendimento a emergências. Durante quase 30 anos no Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), tornou-se uma das vozes do 190, ouvindo pedidos de socorro, incluindo relatos de mulheres em situações de violência doméstica.
Antes de se tornar policial, Kátia era dona de casa e enfrentava violência psicológica do marido, que a impedia de trabalhar. Em um dia decisivo, saiu escondida de casa para procurar emprego e encontrou duas jovens que se inscreviam para a “Polícia Feminina”. “Meu dinheiro era só da passagem. Foram os cinco cruzeiros que eu usei para fazer a inscrição”, contou.
Após ser aprovada, Kátia teve que lidar com a agressividade do ex-marido ao contar a novidade. Mesmo assim, decidiu seguir com o curso de formação, conciliando os estudos com a rotina familiar. Com o apoio da tia e colegas da corporação, Kátia concluiu o curso como a quarta colocada da turma e foi designada para o Copom.
Em 2023, ao participar da formação da Cabine Lilás, Kátia começou a identificar os ciclos da violência doméstica. “Eu me identifiquei, eu sofri tudo aquilo por anos”, afirmou. Durante seu trabalho na Cabine Lilás, Kátia fez perguntas às mulheres que buscavam ajuda, como: “Você falou do seu marido, dos seus filhos, mas e você?”, para ajudá-las a recuperar a autonomia.
Atualmente, Kátia ministra aulas de Tecnologia, Informação e Comunicação na Escola Superior de Soldados (ESSd) e de Direitos Humanos no Comando de Policiamento de Choque (CPChq). Ela enfatiza a importância de um atendimento humanizado para quem liga para o 190, que muitas vezes está em um momento de desespero. “Às vezes é a única chance que aquela pessoa tem”, comentou.
A Cabine Lilás reúne iniciativas de combate à violência contra a mulher desenvolvidas pelo Governo de São Paulo, oferecendo atendimento especializado por policiais femininas. Desde 2023, foram realizados 25 mil atendimentos, com 120 prisões em flagrante por descumprimento de medida protetiva.
Além da Cabine Lilás, as vítimas podem utilizar o aplicativo SP Mulher Segura, que permite registrar boletins de ocorrência e acionar o botão do pânico. O estado conta com 142 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), sendo 18 com atendimento 24 horas.
O movimento Por Todas SP visa ampliar a visibilidade das políticas públicas para mulheres e fortalecer a rede de proteção e acolhimento.

