A Comunidade Remanescente de Quilombo Eva Maria de Jesus, localizada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, será o primeiro quilombo do Brasil a ser tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O reconhecimento ocorrerá durante a 112ª Reunião do Conselho Consultivo do Iphan, marcada para esta terça-feira (10).
O presidente do Iphan, Leandro Grass, afirmou que “muitos outros territórios quilombolas receberão, com justiça, esse mesmo reconhecimento”. Ele destacou que a declaração de tombamento é um importante gesto de reparação histórica às comunidades quilombolas, enfatizando que o trabalho do Iphan é realizado com a participação direta das comunidades.
““A declaração de tombamento representa um importante gesto de reparação histórica às comunidades quilombolas. O trabalho conduzido pelo Iphan para o tombamento constitucional dos quilombos é construído com a participação direta das comunidades, que são as verdadeiras protagonistas”, disse.”
A arquiteta Rayssa Almeida Silva, residente da comunidade Tia Eva, participou do processo de tombamento e considera a medida um legado para o futuro e uma homenagem aos ancestrais. Ela ressaltou a importância de despertar o interesse dos mais jovens sobre a história do quilombo.
““Primeiro, buscamos realizar o sonho dos mais velhos. A outra luta é para despertar o interesse dos mais jovens. Muitas pessoas moram aqui em Campo Grande e não sabem da história. Esse reconhecimento ajuda a mostrar o exemplo que Tia Eva foi de não desistir das batalhas da vida”, disse Rayssa.”
O quilombo foi fundado por Eva Maria de Jesus, conhecida como “Tia Eva”, uma benzedeira e alforriada que viveu entre 1848 e 1929. A comunidade é um marco da resistência negra no estado. João Henrique dos Santos, superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, destacou a importância da trajetória de Tia Eva.
““Há um protagonismo de uma mulher negra, recém alforriada, que chega no sertão brasileiro, como era conhecida a região sul do então Mato Grosso e, nesse território, ela constitui uma comunidade fantástica. Era uma comunidade rural, que agora se insere no contexto urbano”, diz o superintendente.”
Nilton dos Santos Silva, tataraneto de Tia Eva, expressou esperança de que o tombamento traga mais interesse pela história da comunidade e melhorias para o local.
““Tudo que eu aprendi e o que sou vem de gerações passadas. Espero agora, com o tombamento, o reconhecimento da história, onde tudo começou, e também que venham mais coisas para a comunidade, como reformas e visitantes”, diz Nilton.”
O processo de tombamento teve início nos primeiros meses de 2024, com diálogos entre técnicos do Iphan e moradores do quilombo. A Portaria Iphan nº 135, de 20 de novembro de 2023, regulamentou o procedimento para documentos e sítios que contenham memórias históricas dos antigos quilombos, criando um Livro do Tombo específico para esses locais.
A portaria estabelece princípios como a autodeterminação e a consulta prévia, livre e informada das comunidades quilombolas, além de valorizar a resistência quilombola contra a escravização e a discriminação histórica.


