R$ 33 milhões em propina: conversas revelam corrupção na Polícia Civil de SP

Amanda Rocha
Tempo: 4 min.

Mensagens de áudio e texto revelaram a extensão dos crimes de corrupção na Polícia Civil de São Paulo, alvo de uma operação do MPSP (Ministério Público de São Paulo) e da PF (Polícia Federal) na manhã desta quinta-feira (5).

As investigações indicam que policiais civis cobravam até R$ 33 milhões em propina para encerrar inquéritos relacionados a suspeitos de lavagem de dinheiro. Em uma troca de áudios, um dos investigados afirmou: “Fui até a delegacia, tá? É referente a uma transferência de (R$) trinta e três milhões. Ali naquela delegacia, o delegado é ‘parceiraço’ meu, tá? Você quer que eu faça alguma coisa lá? Tô…Vou aguardar a orientação tua, tá bom?”.

Os policiais utilizavam valores como os R$ 33 milhões para intimidar e pressionar os investigados, uma estratégia para aumentar a probabilidade de um “acerto”. Em resposta, um dos alvos do MP negou que a transferência milionária tenha ocorrido, e a Justiça confirmou que nenhum valor desse montante aparece nos autos, considerando-o um “mero instrumento de pressão”.

Além disso, conversas interceptadas mostram como eram feitos os acordos. Um dos investigados relatou: “Então, quando eu conversei com o escrivão, o escrivão falou também ‘ah é setecentos pau’ (R$ 700 mil) … Falei ‘cara, sai fora’ e aí baixei para um valor pequeno, entendeu? E foi um cenzão (R$ 100 mil) lá e aí ele falou ‘cara, beleza, porque é para você!’”.

A decisão judicial que autorizou a operação menciona que, em momento posterior, os investigados discutiram a possibilidade de uma abordagem presencial a agentes públicos, fazendo referência a um “acerto” para “resolver” a questão da intimação, o que sugere pagamento de propina. Outras conversas interceptadas indicam pagamentos fracionados realizados em diversas ocasiões.

A operação, denominada Bazaar, visa combater a corrupção e lavagem de dinheiro na Polícia Civil de São Paulo. Na manhã desta quinta-feira (5), foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão, incluindo unidades policiais, além de 11 mandados de prisão e seis mandados de intimação relacionados a medidas cautelares diversas da prisão, direcionados a integrantes da organização criminosa, advogados e policiais civis.

Entre os alvos estão os doleiros Leonardo Meirelles e Meire Poza, já investigados na Operação Lava Jato, apontados como operadores do grupo criminoso. Até o momento, nove pessoas foram presas, incluindo dois investigadores, um escrivão de polícia, um delegado e Meire Poza. Outros membros do grupo ainda estão sendo procurados.

A decisão judicial destaca um “elevado grau de prática de corrupção sistêmica” entre policiais do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), do DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania) e do 16° DP (Vila Clementino). A investigação revela um “amplo e estruturado esquema de corrupção policial voltado à proteção de uma organização criminosa especializada em lavagem de dinheiro”.

O MPSP afirma que a organização atuava de forma coordenada para garantir a continuidade das práticas criminosas e evitar a responsabilização de seus integrantes, realizando pagamentos sistemáticos a agentes públicos e adotando estratégias de fraude processual, manipulação de investigações e destruição de provas.

A operação é conduzida pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO) com o apoio da Corregedoria da Polícia Civil. Em reunião conjunta, foi decidida a realização de correições extraordinárias em todas as unidades policiais envolvidas para responsabilização disciplinar e apuração de outros ilícitos.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo declarou que a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta e tomará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso irregularidades sejam confirmadas. O espaço permanece aberto para o posicionamento da defesa dos alvos citados.

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