O aumento da expectativa de vida é uma conquista celebrada até o século XX. No entanto, nas últimas duas décadas, a perspectiva mudou: não basta viver mais, é necessário viver melhor. Essa mudança acompanha o crescimento do número de idosos, que, embora vivam mais, também enfrentam um aumento nas doenças.
Na oftalmologia, a catarata é um exemplo emblemático. É uma doença grave, mas com solução simples. Sem tratamento, a visão fica embaçada, podendo levar à cegueira total. A cirurgia, que é segura e eficaz, devolve autonomia e qualidade de vida. Contudo, os dados do SUS revelam filas de centenas de milhares de pessoas aguardando meses por esse procedimento.
A espera média para a cirurgia de catarata é de 137 dias, com cerca de 600 mil pessoas na fila em janeiro do ano passado. O Norte e o Nordeste enfrentam a falta de especialistas e estrutura, um problema que não se resolve rapidamente. Os mutirões de catarata oferecem alívio, mas não solucionam a questão estrutural, resultando em filas contínuas.
É necessário implementar fluxos contínuos de cirurgias eletivas, com polos especializados e uso inteligente da tecnologia. A teleoftalmologia pode ser um aliado na triagem em áreas remotas. A parceria entre a rede pública e privada é fundamental para enfrentar essas desigualdades.
O Hospital Albert Einstein, onde atuo, contribui com o SUS por meio do PROADI-SUS, promovendo o compartilhamento de experiências e tecnologia. Recentemente, a instituição foi classificada como o segundo melhor centro de cirurgia de catarata da América Latina pela revista Newsweek e obteve o primeiro lugar em cirurgia refrativa.
A inteligência artificial (IA) já impacta o diagnóstico e planejamento cirúrgico, sugerindo cálculos ideais de lentes intraoculares e aumentando a segurança do paciente. O futuro pode trazer cirurgias autônomas por IA, ampliando diagnósticos e reduzindo filas, garantindo acesso a cuidados de qualidade, mesmo em regiões remotas.
Os idosos, independentemente da localização, devem ter assegurado o direito à saúde ocular, o que significa envelhecer com autonomia e segurança. O reconhecimento internacional da nossa expertise é um compromisso renovado em democratizar os avanços alcançados, visando transformar a vida cotidiana de milhões de brasileiros que dependem do SUS para uma visão melhor e um envelhecimento digno.

