A oferta crescente de parcelamento em até três vezes sem juros tem levado consumidores a usar crédito para despesas do dia a dia, elevando o endividamento das famílias brasileiras. Em março, a inadimplência atingiu R$ 238,5 bilhões, com 81,7 milhões de pessoas inadimplentes.
O parcelamento facilitado em compras rotineiras, como em supermercados, postos de gasolina e farmácias, tem incentivado o uso do crediário para pagar despesas mensais, segundo a socióloga Adriana Marcolino, diretora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Ela alerta que o crédito deveria ser usado para bens duráveis e de maior valor, não para complementar a renda.
A economista Katherine Hennings, pesquisadora da Fundação Getulio Vargas (FGV), destaca que a facilidade de acesso ao crédito, aliada aos estímulos publicitários, agrava a ansiedade de consumo e leva as pessoas a antecipar compras sem avaliar os impactos financeiros. “Há diversos apelos à compra, e as pessoas têm acesso ao crédito, o que viabiliza anteciparem o consumo”, afirma.
Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), observa que os consumidores costumam verificar apenas se a parcela cabe no orçamento, sem considerar os juros embutidos no parcelamento. Já a economista Isabela Tavares, da Consultoria Tendências, alerta que o limite do cartão de crédito não deve ser confundido com renda extra, pois o pagamento deve ser feito com o salário mensal.
Segundo dados do Banco Central, a inadimplência das famílias no Sistema Financeiro Nacional somava R$ 238,5 bilhões em março, representando 5,3% do crédito total concedido. A Serasa Experian aponta que 81,7 milhões de pessoas estão inadimplentes, sendo que 47,1% das dívidas em atraso são com bancos e financeiras, e 78% dos devedores recebem até dois salários mínimos. Pessoas com menor renda recorrem a empréstimos mais caros, como cheque especial e rotativo do cartão.
O planejador financeiro Carlos Castro destaca a importância da educação financeira para evitar o endividamento contínuo. Ele desenvolveu uma cartilha e uma calculadora para auxiliar na adesão ao programa Desenrola 2, iniciativa do governo federal para renegociação de dívidas, que considera uma medida emergencial e de curto prazo.

