O médico e escritor Maurício Mendes discute os efeitos da lógica da produtividade na assistência à saúde, apontando que a medicina incorporou termos administrativos como produtividade e rentabilidade. Essa mudança transforma o cuidado, fazendo com que a consulta se torne um processo controlado por tempo e custos, e não um encontro entre pessoas.
A rotina assistencial passou a ser medida por indicadores de eficiência, enquanto a atuação médica é cercada por protocolos e metas de desempenho. Segundo Mendes, essa transformação altera a compreensão do cuidado, pois a escuta disputa espaço com a urgência dos cronogramas. Ele afirma que nem toda dor pode ser traduzida em prontuários ou indicadores, e que o desgaste moral dos profissionais de saúde raramente aparece nos registros oficiais.
O tempo, visto como recurso econômico, é um ponto central dessa discussão. Em muitos serviços, a duração da consulta é definida pela produtividade, e a escuta prolongada é vista como ineficiência. O autor aponta que essa lógica afeta a qualidade da atenção, pois processos como comunicar um diagnóstico grave ou construir confiança exigem tempo que não se encaixa em um cronômetro.
Mendes ilustra essa distorção em seu romance, onde um personagem em hospital público do Ceará é instruído a omitir a falta de medicamentos de familiares. Em outro cenário, em clínica privada de Fortaleza, o tempo de conversa é rigidamente monitorado para aumentar a rentabilidade. Em ambos os casos, interesses institucionais limitam a relação entre médico e paciente.

