Cavalcante, em Goiás, registra a maior taxa de estupro de vulnerável do estado, segundo dados do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO). O levantamento do Programa Justiça Plena indica que a maioria dos casos ocorre na comunidade Kalunga e se relaciona ao falso apadrinhamento.
O município exibe 3,7 casos de estupro de vulnerável a cada mil habitantes, valor muito superior à média de Goiânia, que é de 0,43 caso a cada mil habitantes. A área de ocorrência da cultura Kalunga abrange 23 comunidades em 260 mil hectares na região.
A defensora de direitos, Arianne Cândido, explica que o falso apadrinhamento cria um cenário para o abuso. Ela relatou que famílias de boa condição financeira recebem meninas kalungas, com idades entre 12 e 14 anos, sob a promessa de moradia e educação. Essas jovens são, então, submetidas a exploração e violência, muitas vezes pelos provedores dos lares.
O Programa Justiça Plena diagnosticou poucas mudanças na última década, apesar de 30 interrupções indevidas de investigações de abusos sexuais contra crianças kalungas desde 2015. O Ministério Público de Goiás, em 2024 e 2025, apresentou 150 recursos contra decisões do TJGO que reduziam penas ou absolviam réus.
Um avanço legal é a Lei 15.353, aprovada recentemente. Ela estabelece a presunção absoluta de vulnerabilidade para menores de 14 anos, dificultando teses de defesa como o consentimento ou erro de tipo. Cândido defende que os canais de Justiça apliquem a nova lei e que o Poder Público aumente sua presença na região.


