O governo da China implementou uma operação de censura digital para remover imagens da destruição do Portão Nacional, na fronteira com o Nepal, após uma enchente no dia 26 de agosto. A ação utilizou reconhecimento de imagem e algoritmos para apagar vídeos de testemunhas e substituir a narrativa do desastre por conteúdos oficiais.
A operação focou na remoção de vídeos que mostravam a torrente de lama e pedras destruindo o Porto de Gyirong, centro de comércio terrestre. Segundo o órgão de monitoramento China Digital Times (CDT), o conteúdo foi bloqueado no WeChat mesmo em mensagens privadas. A editora do CDT, Mira, afirmou que o alvo da censura era o símbolo do Portão Nacional, embora as imagens não contivessem slogans políticos ou violência explícita.
Analistas indicam que Pequim substituiu a exclusão em massa por uma tática de saturação. Em plataformas como o Xiaohongshu, buscas por deslizamentos no Tibete retornam reportagens da agência Xinhua e da emissora CCTV, com mapas e imagens de drones aprovadas pelo Estado. No Weibo, as vítimas domésticas foram fixadas em três mortos e 558 desaparecidos, enquanto o fluxo de notícias foi redirecionado para as ações de resgate coordenadas pelo presidente Xi Jinping e pelo primeiro-ministro Li Qiang.
A repressão digital buscou ocultar falhas de infraestrutura. Uma hashtag que chegou a ter 347 mil visualizações apontava que o Porto de Gyirong havia sido reaberto em 1º de janeiro de 2026, após ser destruído por enchente em julho de 2025. O local sofreu deslizamentos sucessivos em 2024, 2025 e 2026, levantando questionamentos sobre a construção e os sistemas de alerta de lagos glaciais na região.
No Nepal, onde a catástrofe deixou centenas de mortos e milhares de desaparecidos, o jornalista Parshuram Kaphle acusou a China de não compartilhar dados críticos. Kaphle afirmou que a ausência de alertas precoces vindos do território chinês resultou em perdas humanas significativas. A embaixada da China no Nepal negou as acusações em comunicado no Facebook, classificando as alegações de falha nos alertas como notícias falsas.


